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Com ares pop, nova geração da música clássica francesa seduz grande público

Por Leticia Constant

Hoje a França contempla a emersão de uma nova geração de intérpretes de música clássica com menos de 30 anos que com visuais bem longe dos códigos tradicionais vêm lotando salas e seduzindo um público novo, que antes não se interessava pelo gênero.

As irmãs Camille (esq.) e Julie Bertholet, um recorde de vendas DR

Eles são jovens e mais parecem estrelas do rock, mas seus instrumentos são pianos de cauda, violinos, violoncelos e cravos...

Uma das estrelas desta nova leva musical é a violinista e violoncelista franco-suíça Camille Bertholet, de 18 anos, que com um talento incomum e uma cabeleira vermelha imensa, vendeu 100 mil exemplares do seu primeiro disco em 2015, e 60 mil no ano seguinte, em dupla com a irmã Julie, que toca violino.

Quando vemos esses números, comparando com as vendas de música popular, podem não ser muito significativos, mas já é bastante.

As duas irmãs têm a agenda lotada até o ano que vem e se apresentam em salas com bilheteria esgotada.

  

Polivalência musical

Edgard Moreau renova a imagem do violoncelo DR

Virtuosismo e frescor também estão presentes no cd "Giovincello", fusão de "jovem com violoncelo" um dos discos mais cotados de 2015, gravado por Edgar Moreau, de 23 anos.

Menino-prodígio, seu primeiro concerto solo foi aos 11 anos de idade, na Itália. Hoje, ele já é um verdadeiro ídolo na França, com opiniões firmes sobre o objetivo que pretende dar à sua trajetória: ser, no sentido amplo do termo, um solista da atualidade.

"Um solista de hoje, um solista do século 21, deve ser capaz de fazer muitas coisas diferentes. É o que desejo fazer, espero conseguir, é meu objetivo de artista poder fazer um disco de peças românticas, e de me colocar no lugar de alguém que conhece o barroco, tentar fazer da melhor forma possível todos esses concertos, com o estilo e com o que puder dar de mim".

Cravo, barroco e jeans

Popularizar o barroco nos dias de hoje não é missão fácil, mas é o desafio de Jean Rondeau, de 26 anos, que com seu look

Jean Rondeau, cravista, interpreta obras do Barroco DR/Warner

descabelado e jeito de poeta underground, lota todas as salas de concerto em que se apresenta.

A violocenlista brasileira Vânia Sautret, que vive na França, diz porque o músico é especial. " O que gosto no Jean Rondeau é essa simplicidade que ele tem com relação à música clássica, mostrando para as pessoas que não é para uma elite. Ele é realmente um artista que sabe conquistar e apesar do cravo ser um instrumento realmente difícil, ele mostra a simplicidade de se aproximar de compositores como Bach, e às vezes temos a falsa impressão de que precisamos saber muito da vida do compositor, o que ele fez, porque ele compôs, e o Rondeau abre essa possibilidade, não precisamos saber muita, mas através da música podemos alcançar o pensamento do compositor na época.

Vânia Sautret também observa que Jean Rondeau popularizou o cravo porque "é importante ver um instrumento, que antigamente era basicamente para uma elite, ser abordado dessa forma. Pessoas como eu, que nunca haviam tido possibilidade de se aproximar do cravo, poder chegar ao concerto dele, discutir, de escutar antes da interpretação a explicação da peça que vai ser tocada, de uma maneira bem simples, e tudo isso traz muita novidade na música clássica", diz a instrumentista.

"Desaristocratizar a música clássica"

Laurent Bayle, presidente da Philarmonie de Paris DR

Falar de juventude e de música clássica levanta uma questão fundamental: como atrair este novo público aos concertos? Uma questão que toca profundamente Laurent Bayle, presidente da grande instituição cultural Philarmonie de Paris, que defende o que chama de "desaristocratização" da música clássica. "É preciso observar o que existe e o que se passa no mundo todo. Constatamos que a música na Europa e nos Estados Unidos começou a se democratizar no século 19, mas que as grandes salas de concerto estão no centro das cidades e nos bairros ricos. Então, "desaristocratizar" a música significa refletir sobre formas de ampliar o público e também, quando pensarmos em novas políticas e na construção de novas salas, conseguir inscrever e instaurar essa nova política e esta nova sala, em bairros menos privilegiados"

Para Laurent Bayle, além desta expansão urbana e social, também é preciso haver uma abertura no próprio repertório dos concertos, que, em geral, são bem engessados."Uma outra maneira de "desaristocratizar" é evitar a criação de locais muito homogêneos em que as programações são muito concentradas. Eu explico: há certos locais de música clássica em que a música começa por Mozart e termina por Debussy, cobrindo somente um século e meio de música. Eu penso que é preciso conseguir, em um mesmo programa, mostrar todas as evoluções históricas , do barroco, e mesmo antes da Idade Média, até a jovem criação contemporânea atual. Uma vez alcançado esse objetivo, é preciso conseguir fazer um cruzamento do eixo mais clássico com o eixo mais popular, ou seja, músicas vindas do jazz e de outras culturas do mundo. Se conseguirmos harmonizar esses elementos, ou seja, uma música que não esteja instalada nos lugares privilegiados e, em segundo lugar, uma música sob todas as formas, começaremos a mudar as referências, a mudar os comportamentos..."

Piano e moda

O pianista de origem libanesa e mexicana Simon Ghraichy, com seus longos cachos e roupas minimalistas, é um dos talentos mais reconhecidos. Em 2013 e 2015, ele lança seus primeiros discos com repertório de Liszt, seu compositor preferido ao lado de Beethoven. em seguida, ele realiza uma turnê "Liszt e as Américas" sobre o compositor húngaro e os músicos que ele influenciou. Contratado pelo célébre selo Deutsche Grammophon, Simon gravou "Heranças", em que explora suas raízes latinas, do México (Márquez, Ponce) ao Brasil (Villa-Lobos, Nazareth, Guarnieri), além de ares espanhóis e uma interpretação revisitada de Debussy.

Recentemente, posou para a loja de luxo L'Eclaireur, vestindo modelos de Yohji Yamamoto, Uma Wang e Comme des Garçons. Em movimentos de bailarino, Simon provou que, além de mãos de anjo, tem outra qualidade surpreendente: a versatilidade. 

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