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Aos 88, cineasta Agnès Varda explora com fotógrafo JR os vilarejos franceses

Por Leticia Constant

Um road movie pode ser a melhor definição para o documentário da cineasta francesa Agnès Varda e do fotógrafo itinerante JR. O encontro improvável dos dois artistas resultou num longa metragem que mostra habitantes simples de vilarejos dos quatro cantos da França. Saída nas salas em 28 de junho.

Foi em 2015 que Agnès Varda e JR se encontraram. Ela, uma diretora consagrada, com um universo bastante pessoal e dezenas de documentários, apaixonada pelas imagens, pelas histórias das pessoas, por tudo o que é espontâneo, verdadeiro. Ele, um artista urbano, fotógrafo itinerante com projetos ambiciosos, que viaja com seu "caminhão fotográfico" e cria colagens monumentais com rostos de pessoas em monumentos como, por exemplo, o Panthéon de Paris.

Duas gerações, duas almas em busca da memória e do efêmero, ao mesmo tempo. Captar o instante, da forma mais simples possível. Não demorou para os dois inquietos criadores, que têm 55 anos de diferença de idade, decidirem partir juntos no caminhão de JR, equipado para revelar imagens de grande formato, para uma aventura que resultou no longa metragem "Visages Villages" (Rostos Vilarejos, em tradução livre); uma viagem real, mas também uma viagem belíssima pela memória da França. Apresentado recentemente no Festival de Cannes, fora de competição, o filme foi ovacionado.

Entre encontros fortuitos e projetos preparados, eles percorreram o interior do país em busca de pessoas, conversando com elas, filmando, fotografando, enfim, mostrando histórias simples de gente simples que, no fundo, são grandes histórias.

Agnès Varda já havia se identificado com JR, muito antes de conhecê-lo pessoalmente. "Eu já o conhecia de nome, depois vi o Panthéon com seus milhares de retratos, vi livros, ele fez trabalhos em Xangai, eu também, em Los Angeles, e eu também, em Cuba, na China, fotografando pessoas velhas, então, eu me disse, ele vai me aceitar numa boa", ela brinca.

Quando os dois se encontraram, decidiram partir em viagem retratando os vilarejos da França.

Entre encontros fortuitos e projetos preparados, eles percorreram dezenas de vilarejos no interior do país retratando pessoas, conversando com elas, filmando, fotografando, enfim, mostrando histórias simples de gente simples que, no fundo, são grandes histórias. Entre os muitos encontros que o filme provocou, um os marcou particularmente, com Janine, uma mulher modesta que vive na região das minas, em Corron, no norte da França. JR lembra com carinho desta pessoa: "É verdade que Janine, que cruzamos em uma rua meio destruída do Correaux, retrata uma mulher que luta, uma mulher que nem imaginava que colaríamos seu retrato em um formato imenso, mas que acabou compartilhando conosco, como todas as pessoas que encontramos, são pessoas que estão lá, que existem em suas comunidades, aos olhos dos moradores.  O que acontece é que, por nós, eles ganham visibilidade. Mas não são necessariamente pessoas esquecidas, são pessoas conhecidas no universo em que vivem. E é verdade que criamos pontes com outros universos e que, através desse filme, a sua história no Courron, que é a nossa história da França também, a história dos mineiros, ela pode tomar uma dimensão maior. Mas, em todo caso, ficamos muitos tocados por essa mulher".

On the road, já!

Agnès Varda conta que ela e seu companheiro artístico não levaram muito tempo para "ciar na estrada". "Foi na hora. Eu acho que ele é um artista urbano formidável, mas precisava sair das cidades. No fundo, tudo o que fizemos juntos e que ficou gravado no vídeo, ao menos isso não vai ser esquecido. Porque acontece que quando a gente perde a memória, aos poucos, tudo o que captamos é salvo, e o que é perdido, está perdido. eu não sou contra o esquecimento, Luis Buñuel, o cineasta, tinha uma bela frase "Viva o esquecimento!", mas, no entanto, tudo o que lembramos é divertido... A gente sempre é a jovem de alguém e a velha de alguém..." 

Amizade curiosa uniu os dois artistas

O filme de Agnès Varda e JR certamente trouxe aos dois um prêmio que não tem preço: a amizade. Agnés

Agnès Varda e JR diante de painel fotográfico de "Visages Villages" © Ciné Tamaris Social Animals

explica a identficação imediata que sentiram: "É a curiosidade também que se torna amizade. Eu estava curiosa com a rapidez de reação quando ele teve a ideia, ele faz as fotos no seu carro, revela, sobe na escada, cola... A rapidez da concepção do que você, JR, quer fazer, me impressionou. E o fato de que a curiosidade sobre isso me divertiu, e eu compreendi que a curiosidade sobre isso compreendia a curiosidade sobre o meu próprio envelhecimento, e de seus efeitos..."

E JR, o que em Agnés o encanta? "Para mim, é o tom de sua voz, quando ela fala ela conta a vida, sim, como uma contadora de histórias, e isso me toca muito porque ela tem muita curiosidade sobre tudo, mas a maneira que ela conta, mesmo uma pequena história banal, vira um filme. Ela me ensina a ver tudo com um olhar curioso, é algo que, a cada vez, me maravilha".

O documentário "Visages, Villages" tem lançamento previsto no Brasil, mas a data ainda não foi anunciada.

Veja o trailer do documentário:

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