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Hélio Oiticica ganha retrospectiva no Whitney Museum, em NY

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Hélio Oiticica ganha retrospectiva no Whitney Museum Divulgação

Não é todo dia que se pode caminhar descalço na areia em Manhattan, ouvindo o canto de papagaios, se jogar no feno ou em colchões e lixar as unhas cercado de desenhos feitos de carreiras de cocaína.


Bem-vindo ao universo de Hélio Oiticica, um dos mais originais artistas do século 20, que ganhou sua primeira retrospectiva nos Estados Unidos em 20 anos, inaugurada nesta sexta-feira (14), no célebre Whitney Museum of American Art.

Oiticica (1937-1980), que morou por quase uma década em Nova York nos anos 1970, foi um inovador incansável até sua morte precoce no Rio de Janeiro, aos 42 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.

No início de sua carreira, suas elegantes figuras geométricas quase se descolavam das paredes pelo uso de cores vibrantes. Depois, viraram esculturas, construções arquitetônicas, arte para vestir e, finalmente, Oiticica criou "ambientes" que ativam os sentidos e deixam o espectador imerso em outra realidade pelo som, pelo tato, pela imagem ou pelo olfato.

Viajar para se perder

"Ao final, (Oiticica) incorpora você como indivíduo na própria obra, e acho que é isso que ainda achamos tão excitante e quase desafiador em seu trabalho", disse Donna de Salvo, uma das curadoras da exposição.

"Por isso, o nome da exposição: 'Organizar o Delírio'. Porque o delírio é o lugar onde você se perde, é o lugar da mente, do corpo. Não tem limites. E é também algo que lhe pertence. Como artista, Oiticica convida você a entrar, mas o que você faz com isso é seu. Depende de você", explicou.

E a quais aventuras Oiticica convida o público?  Uma delas é o "Edén", uma instalação montada pela primeira vez em Londres, em 1969: um jardim de areia, no qual se entra descalço, que convida a descansar, a ouvir música, a ler, a ver o tempo passar.

E aqui começa a linguagem de Oiticica: você pode entrar em diferentes estruturas ("penetráveis"), manipular materiais orgânicos contidos em objetos ("bólidos") ou vestir coloridas capas ("parangolés") de diferentes maneiras.

Oiticica, que adorava escrever e teorizar sobre suas obras, descreve "Edén" como um espaço "suprassensorial" e de "crelazer", sob a premissa de que o ócio é essencial para a criatividade.

Outra instalação é "Tropicália", de 1967, sua obra mais famosa e o primeiro de seus quatro retratos do Brasil.

A obra usa clichês associados ao país - areia, cascalho, pássaros exóticos, vegetação frondosa -, mas um "penetrável" contém um televisor a todo volume, enquanto outros remetem à precariedade da vida na favela da Mangueira, em uma crítica aos contrastes do Brasil.

Pouco depois, o cantor e compositor Caetano Veloso tomou emprestado de Hélio Oiticica a palavra "Tropicália" para intitular um álbum que se tornou hino contra a ditadura militar brasileira (1964-1985) e fez nascer o movimento artístico de mesmo nome.

Cocaína, cultura gay e marginal

Criados com seu amigo Neville d'Almeida em 1973 e ligados ao uso da cocaína por parte de Oiticica, "Cosmococas" são "pequenos ambientes" onde se projetam slides de desenhos feitos com a droga sobre material gráfico, com uma elaborada trilha sonora.

Em um deles, os espectadores são convidados a se jogar em colchões, enquanto lixam as unhas - um clima ideal para o "crelazer".

"Decidimos fazer algo que ninguém tinha feito antes, e assim inventamos 'Cosmococas'. A gente gostava tanto de trabalhar que se divertia o tempo todo. Não éramos como esses artistas que sofrem e suam. E inventamos a instalação na arte contemporânea", contou Neville à agência France Presse.

Quando Oiticica morou em Nova York, no East Village, "a cidade estava no inferno e não tinha dinheiro", mas era o berço de "uma fantástica cultura gay, da qual Oiticica fazia parte", comentou a também curadora Elisabeth Sussman.

“Ele não achava que os museus fossem, necessariamente, os lugares onde a arte dele devia estar", explica.

Ela lembra ainda que o artista frequentou as favelas do Rio e a escola de samba Mangueira, identificando-se com o que chamou de "marginália" - ou "cultura marginal" - e criando, em 1968, o lema "Seja marginal, seja um herói" sob a imagem de um amigo da favela assassinado pela polícia.