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Grupo carioca apresenta releitura de "Alice no País das Maravilhas" em Edimburgo

Por Patricia Moribe

Nas mãos do grupo carioca BAK Artes Performativas, “Alice no País das Maravilhas” virou “Alice - Underground Lives My Buried Mind (Deflowering Lewis Carroll's Script)”, ou, em português: “Alice- debaixo da terra vive a minha mente soterrada (deflorando o manuscrito de Lewis Carroll)”. Além de ter título original em inglês, a peça também é toda encenada na língua de Shakespeare.

Tudo isso porque o espetáculo está na programação do prestigiado festival Fringe de Edimburgo, na Escócia. O diretor João Marcelo Pallottino conta que tudo foi pensando em inglês desde o início, já com a ideia de viajar com a peça. “No Brasil, o teatro ainda é muito marcado pelo clássico, pelo moderno. Falta o contemporâneo. Então pensamos em levar o que temos, ver o que estão fazendo em outros lugares e o que podemos trazer de volta”, conta.

“A gente trabalhar com a linguagem de teatro performativo. Seria um cruzamento de linguagens, arte sonora, dança, texto. É um espetáculo híbrido”, explica o diretor. “Pegamos Alice, do Lewis Carroll, e focamos no tema da violência. Uma garota, Alice, passa um dia qualquer, se deparando com questões com estupro, abuso e questionando se há um país das maravilhas, se questionando se vivendo num mundo contemporâneo existe alguma brecha para esse país das maravilhas”, relata João Marcelo.

Reflexos da violência

“Estamos vivendo um momento muito delicado no Brasil, em que não podemos andar na rua, de muita violência, tem a questão dos nossos parlamentares”, diz o diretor. “Então colocamos a personagem principal, de 15 anos, para viver essas agruras durante um dia qualquer”. Outra reflexão que é lançada para a plateia é o fato de Alice ser branca, mas ser criada por pais negros, sem que a questão seja abordada em cena.

Alice fica em cartaz até o dia 20. Do dia 21 até 28, o BAK apresenta um outro espetáculo, Torn Apart – by Romeo and Juliet, que traz uma leitura bem contemporânea de um dos textos mais conhecidos de William Shakespeare.

70 anos de muitos palcos

O Fringe, que apresenta as peças brasileiras, está completando 70 anos, assim como o Festival Internacional de Edimburgo. Nascido para ser uma alternativa à pompa do evento oficial, o Fringe acabou criando personalidade própria e se tornou o maior festival de espetáculos do mundo. Para se ter uma ideia, em 2016, durante 25 dias, foram mais de 50 mil apresentações de mais de 3 mil espetáculos, espalhados por quase 300 endereços. O cardápio tem de tudo, de versões de clássicos da dramaturgia a experimentações, passando por música e stand-ups.

Já o Festival Internacional de Edimburgo se firmou como uma vitrine de grandes nomes mundiais da música clássica, da dança e do teatro, mas com um approach mais descontraído. No ano passado, a Orquestra Sinfônica de São Paulo, a OSESP, sob a batuta da americana Marin Alsop, participou da programação.

Festival une tradição e modernidade

Neste ano, a produção italiana do Teatro Regio de Torino, com direção de Emma Dante, para “Macbeth”, de Verdi, arrancou elogios da crítica. A escolha da obra lírica baseada no atormentado personagem de Shakespeare não foi casual, ela apresentada na primeira edição festival escocês, em 1947. Setenta anos depois, o drama, que se passa na Escócia, volta com tons sombrios, à la Game of Thrones e ousadias como um rei morto como Cristo na cruz e bruxas em plena orgia.

"Macbeth" tem forte presença visual. Photo: Franco Lannino / Studio Camera / Eif

A trama do rei que trai e se afoga na loucura é retomado em outro espetáculo completamente diferente “Lady Macbeth, Unsex me here”, no festival paralelo, só que o personagem principal é a rainha, desta vez vivida em dança por três homens da companhia Chordelia and the Solar Bear. Nada de maneirismos, o que se vê no palco são três homens em plena turbulência feminina de raiva e loucura.

Música e drama

Na música, Anoushka Shankar, filha do mítico Shavi Shankar, trouxe ao palco escocês sua virtuose hipnotizante da cítara, misturando tradição indiana com tons contemporâneos, mostrando porquê é considerada um grande nome da música e não apenas filha do artista que revelou ao mundo o instrumento indiano, pela mão do então Beatle George Harrison.

O teatro do festival de Edimburgo também conecta passado com futuro. A peça em um ato e um só ator (o irlandês Barry McGovern) “Krapp’s Last Tape”, de Samuel Beckett, faz uma reflexão sobre o tempo, quando um homem solitário e ranzinza ouve gravações que fez quando jovem, ora se reconhecendo ou não.

O Festival de Edimburgo também tem como missão prestigiar talentos locais, como “Meet me at Dawn” (A gente se vê no nascer do dia, em tradução livre), numa peça poética de despedida de uma vida a dois, quando uma mulher perde sua companheira mas consegue por uma estranha magia, alguns instantes a mais com ela, um privilégio de dor e apaziguamento.

Para ouvir o programa, clique na foto ao alto

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