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Escritora baiana radicada na Alemanha: “Sou discriminada em meu próprio país”

Por Elcio Ramalho

Escritora e educadora infantil baiana radicada há 22 anos na Alemanha, Fátima Nascimento veio a Paris a convite da Associação Alter Brasilis para fazer leituras e falar de suas obras, publicadas pela editora que fundou.

A literatura entrou na vida dela por meio de sua experiência com o universo infantil na Alemanha, país onde se instalou depois de ver seus perspectivas profissionais se fecharem em sua terra natal.

Depois de fracassar duas vezes no vestibular e não conseguir entrar em uma universidade na Bahia, Fátima foi seduzida por um projeto na Alemanha visando criar o primeiro albergue totalmente ecológico no país. A experiência não vingou, mas ela decidiu fincar raízes em Munique.

Sua trajetória profissional decolou após ter feito um curso profissionalizante para trabalhar com educação infantil. Foi neste período que despertou seu interesse pela literatura.

Um dos trabalhos obrigatórios do curso foi escrever uma história infantil. Assim surgiu Die Seerose Alba, um conto baseado nas suas referências brasileiras, mas recheada de personagens “europeus”, como ela se refere aos ursos e à fada-madrinha do enredo.

Depois de publicar a versão em alemão, veio a necessidade de traduzir o livro para o português, mas com outro enfoque.

“Conversando com uma amiga, ela me falou: por que você não traz sua cultura para o teu livro? Combina mais com você. Então fui para o Pantanal e trouxe os bichos comigo”, explicou.

O livro então ganhou outros personagens e o título “Alba, a vitória-régia”, inspirado de maneira involuntária em sua própria experiência no país de adoção.

“O livro, na realidade, é a minha história. Só notei depois que estava pronto. Alba nasceu sozinha, e eu, quando saí de Salvador e fui para a Alemanha, também estava sozinha, à procura de amigos. Até que conheci uma amiga que me apresentou ao meu marido”, lembra.

Seu trabalho com literatura infantil também está relacionado com a vivência como educadora infantil. Depois de iniciar a carreira como assistente maternal, hoje Fátima dirige uma creche em Munique. “As crianças vivem em um outro mundo. Entrar nesse universo é frequentar um mundo com novas figuras e também outros sentimentos, ainda muito puros”, explica.

Discriminação em seu próprio país

Para dar visibilidade a seus projetos literários, Fátima fundou sua própria editora, a Fafalag, um jogo de palavras entre seu apelido de infância em Salvador, Fafa, e a palavra alemã verlag, que significa editora.

Nesse momento ela usa a empresa apenas para promover seus livros, mas, no futuro, pretende também publicar autores brasileiros na Europa. “Na Alemanha, cada vez que você tem uma ideia, tem mais impostos a pagar, isso ainda é um pouco confuso, já que tenho outras atividades”, disse.

Seu mais recente livro é “Minha Baianidade Nagô”, que traz poemas escritos entre 1990 e 1994. “Como tudo que faço, diz respeito a meus projetos pessoais. Precisei de um tempo para amadurecer e publicá-lo”, justifica, ao se referir a uma obra que fala de sua identidade negra.

Apesar da necessidade de mostrar sua trajetória de vida e a alegria de suas raízes baianas, Fátima Nascimento diz evitar viajar ao seu país natal devido à discriminação.

“Apesar de estarmos em 2017, o racismo ainda é muito grande. Quando chego (em Salvador), nas ruas as pessoas dizem ‘ei neguinha, pegou um gringo’. Quando vou visitar amigos, o porteiro me pede para entrar pela porta dos fundos, isso existe ainda”, relata.

Desde que se instalou na Alemanha, Fátima só foi quatro vezes ao Brasil e não sente vontade de voltar para não passar por mais nenhum tipo de humilhação.

“Eu vivo há 22 anos na Alemanha, posso ir a qualquer restaurante e em qualquer lugar e não tem essa coisa. A minha aparência é de uma estrangeira, eu aceito. Sou discriminada por ser estrangeira, mas não pela minha cor. Dentro do meu país, em Salvador, onde 90% da população é negra, sou discriminada pela minha cor. É triste”, conclui.

 

 

 

A escritora Fatima Nascimento RFI

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