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Romance sobre desaparecimento do nazista Mengele no Brasil é sucesso na França

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O racista Mengele, que nunca renegou suas convicções e acreditava na superioridade da raça alemã, morreu afogado na praia de Bertioga, em 1979, sem nunca ter sido julgado. Reprodução Youtube

O livro "La disparition de Josef Mengele" (O Desaparecimento de Josef Mengele), de Olivier Guez, editado pela Grasset, é um dos destaques desta temporada literária na França. O romance sobre a fuga do médico nazista, chamado de "o anjo da morte de Auschwitz", na Argentina, Paraguai e Brasil, concorre a pelo menos três dos principais prêmios literários do país.


"O Desaparecimento de Josef Mengele" é o segundo romance de Olivier Guez e seu sétimo livro. Em 2014, antes da Copa do Mundo no Brasil, ele publicou "L'Éloge de l'esquive" (Elogio do drible), também pela Grasset, exaltando o futebol-arte brasileiro que ele admira desde a infância. Em entrevista a RFI, Oliver Guez diz que escrever sobre o futebol foi um "parenteses metafísico" no trabalho que ele desenvolve há anos sobre o mundo e a Europa após o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Sua preocupação é entender "como o continente, seus países e seus indivíduos, conseguiram se reerguer após tamanha carnificina". A fuga do criminoso Mengele é a sequência desse trabalho, o "lado negro" dessa história.

E para contar o desaparecimento de Mengele, Oliver Guez visitou os lugares onde ele se escondeu durante 30 anos, principalmente na Argentina e na região de São Paulo, e optou pela forma romanesca. O escritor respeitou ao máximo a verdade histórica, mas com o romance pôde "fazer um perfil, uma interpretação subjetiva da personalidade" do nazista. Ele diz que não busca humanizar o fugitivo: "Mengele é um homem, um personagem medíocre, mas o taxar de monstro, criminoso absoluto, diabo ou anjo da morte, é lhe dar muito crédito. É assustador, mas ele continua sendo um homem". Guez lembra que o médico SS é um puro produto do sistema industrial de morte, desenvolvido pela Alemanha nazista.

"Buenos Aires Quarto Reich fantasma"

Mengele escapou duas vezes do serviço secreto israelense Reprodução

Mengele, que mandou milhares de judeus para a morte e fez experiências desumanas com prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, chegou à Argentina em 1949, com documentos falsos. O país era governado por Perón, que acolheu coniventemente centenas de ex-nazistas e fascistas de toda a Europa. "Buenos Aires era um Quarto Reich fantasma", sugere Olivier Guez em seu romance. O criminoso de guerra passou seus 10 primeiros anos foragido no país, sem grandes preocupações. Pôde trabalhar, fundar empresas, praticar abortos clandestinos, ganhar dinheiro e até recuperar sua verdadeira identidade no consulado da Alemanha Ocidental. Na época, não havia ainda nenhum mandado internacional de prisão contra ele.

A partir de 1959, com a emissão de um primeiro mandado pela Justiça alemã, e principalmente após a captura pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, do líder nazista Adolf Eichmann em Buenos Aires, em 1960, a situação muda completamente. Mengel se sente perseguido a todo instante. Após uma rápida passagem pelo Paraguai, ele se esconde no Brasil. Auxiliado por simpatizantes nazistas, financiados pela rica família Mengel, ele vai viver 20 anos, usando um nome falso, na região de São Paulo.

Capa do romance "La Disparition de Josef Mengele", de Oliver Guez. Grasset.fr

"Uma prisão aberta infinita"

O Mossad chegou duas vezes a localizar Mengel, na Argentina e no Brasil, mas as operações não foram concretizadas devido a outras prioridades para a defesa de Israel. No início dos anos 60 ninguém sabia mais ao certo onde ele estava, histórias mirabolantes circulavam, e os países envolvidos não o procuravam mais como antes. Mas Mengele "mergulha na paranoia, convencido que atrás de cada árvore se escondia um agente do Mossad, da CIA ou um caçador de nazista. E essa descida ao inferno é um formidável tema literário", diz o autor. O Brasil se transforma "em uma prisão aberta infinita e longe dos homens", escreve Guez.

O racista Mengele, que nunca renegou suas convicções e acreditava na superioridade da raça alemã, morreu afogado na praia de Bertioga, em 1979, sem nunca ter sido julgado. Ele foi enterrado em uma sepultura do cemitério de Embu. Seu esqueleto só foi encontrado e identificado pela polícia brasileira em 1985. Seus ossos, que a família se negou a repatriar para a Alemanha, ficaram no IML de São Paulo até 2016, quando foram doados para a ciência. "Essa é uma formidável conclusão para um destino lamentável como o de Josef Mengele", mais de 71 anos após o fim da guerra que aniquilou um continente cosmopolita e cultivado.

"Temos sempre que desconfiar dos homens" é a última frase do romance de Olivier Guez.