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Orgias em performance em Paris são "metáfora da sociedade", diz Libération

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O jornal francês Libération desta sexta-feira (6) elogia as performance artística "To Come" (Gozar), coreógrafa dinamarquesa Mette Ingvartsen, em cartaz no Centro Pompidou, em Paris. Fotomontagem RFI/ liberation.fr

Em tempos de censura ao nu e à arte no Brasil, dois jornais franceses abordam, nesta sexta-feira (6), a nudez e o sexo nas performances artísticas, e entrevistam dois grandes nomes do chamado "body art", ou a arte do corpo.


"As orgias são uma metáfora da sociedade" é o título de uma matéria publicada pelo jornal Libération sobre o novo espetáculo dirigido pela coreógrafa dinamarquesa Mette Ingvartsen, em cartaz no Centro Pompidou, em Paris. Apaixonada pela história do corpo e pela queer culture, a artista se apropria de códigos da pornografia para compor sua nova obra, "To Come", ou em português, "Gozar". 

Utilizando 15 dançarinos, "To Come" aborda o ato sexual de forma mecânica, com movimentos de aceleração e pausas, cores, formatos e maneiras diferentes de combinar o corpo, diz ela ao Libération. "Tudo é feito para descontruir, despersonalizar, de forma que o espectador possa refletir além do sexo, tomar distância do funcionamento das imagens pornográficas", reitera a artista.

Segundo o diário, a performance trata da sexualidade presente no dia-a-dia, seja na publicidade, "como a modelo que lubrifica os lábios e a língua encarando o público numa propaganda de sorvete", ou no cotidiano, quando a pornografia influencia a maneira das pessoas de viver, de se mostrar, de se movimentar.

Hipersexualização e a mercantilização do desejo

Libération conta que a coreografia da dinamarquesa começou a ser concebida em 2005, "quando, aos 25 anos, recém-formada em uma célebre escola de arte de Bruxelas, Ingvartsen, concentrou suas produções na questão do sexo". Em entrevista ao diário, a artista conta que o espetáculo foi ganhando forma à medida em que a hipersexualização e a mercantilização do desejo se estendiam para a internet e as redes. "Pensamos estar à vontade em relação ao nu, mas isso não é verdade", ressalta.

Segundo Ingvartsen, seu espetáculo é uma forma de perturbar as regras clássicas da dramaturgia para falar de como o desejo e sexo influenciam a sociedade. Para a arista, a representação da orgia que mostra no palco diz muito sobre o jogo de poder, "uma rede de relações que se reconfigura infinitamente" na esfera política e econômica.

A alma e o corpo nus de Marina Abramovic

O jornal Le Figaro traz uma entrevista com o ícone do body art, Marina Abramovic, que está lançando a tradução na França de seu livro de memórias, "Traverser les Murs" ("Caminhada Através das Paredes", tradução livre). "Mulher morena, mulher carnal, mulher intrépida que levou a performance corporal aos extremos e revolucionou até mesmo a definição da arte com suas coreografias nas quais a alma e o corpo estão nus", publica o diário, lembrando que, em 2010, no Museu de Arte Moderna de Nova York, 750 mil pessoas aguardaram na fila durante horas e até dias para encarar a artista de frente na performance "The Artist is Present" (a Artista está Presente, em português).

Nascida em 1946 na ex-Iugoslávia, Marina Abramovic dedicou sua vida à arte do corpo e, segundo Le Figaro, "nos atropela" com seu brilho e espontaneidade. Em entrevista ao jornal, ela diz que, aos 70 anos, olha com sabedoria a seus 50 anos de carreira. Com suas performances vanguardistas, ela diz esperar ter inspirado um grande número de pessoas.

Hoje, "mais feliz do que nunca", a artista não gostaria de reviver sua juventude, embora continue "loucamente apaixonada pela vida". Sabe que chocou o mundo do "politicamente correto", mas se recusa até hoje a entrar na lógica conformista e rigorosa da sociedade. "Um artista é a liberdade, toda a liberdade",  conclui Marina Abramovic ao jornal Le Figaro.