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"Ruy Guerra nunca deixou de ser incendiário", diz biógrafa

Por Márcia Bechara

Historiadora e escritora, ela demorou cerca de dez anos para finalizar a biografia de um dos personagens mais ricos e prolíficos da cultura brasileira. O RFI Convida a escritora Vavy Borges, que lançou em 2017 pela editora Boitempo “Ruy Guerra: paixão escancarada". A autora estará autografando seu livro aqui em Paris, no dia 7 de novembro, na Livraria Portuguesa e Brasileira.

A biografia "Ruy Guerra: paixão escancarada", escrita por Vavy Pacheco Borges, que também é professora aposentada da Unicamp, esmiúça o moçambicano, cineasta ímpar do Cinema Novo, que adotou o Brasil como sua pátria, nos três continentes em que viveu - África, Europa e América. 

"Eu sou uma historiadora, eu queria fazer um pouco a minha própria história, mas não em torno de mim, em torno de alguém muito importante da minha geração, com quem eu tivesse muitas afinidades, políticas ideológicas, artísticas, e mesmo um pouco de história de vida comum. E foi aí que eu me detive no Ruy Guerra", explica Vavy Borges.

Ruy Guerra veio pra Paris estudar no famoso Institut des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC), uma escola de cinema importante, bem no meio efervescência da discussão sobre o cinema de autor e as primeiras “marolas” da Nouvelle Vague, movimento que influenciou diretamente o Cinema Novo no Brasil.

"Ódio e amor" por Paris

"Ruy Guerra tem uma parte de sua vida, principalmente a inicial, extremamente ligada a Paris e à França. Não só ele estudou no IDHEC, mas foi aqui que ele formou grandes laços que depois, profissionalmente, foram importantes na vida dele. Ele trabalhou em alguns filmes aqui como "Sweet Hunters", que é considerado um grande cult, e que nunca foi exibido no Brasil. Ele tinha uma grande cobertura do Cahiers de cinéma, ele tem uma ligação tão forte com Paris, que ele brinca que não sabe o que é mais forte, o amor ou ódio [por Paris]. Porque no começo, quando ele era estudante aqui, ele penou bastante como imigrante africano, naquela época em que a África não estava muito na moda", conta a escritora.

"Ele nunca passou de incendiário a bombeiro"

A questão política, a discussão política sempre foi importante na vida de Ruy Guerra. Aos 16 anos ele já filmava com uma 8mm a vida de trabalhadores portuários negros. 

"Ruy nasceu numa colônia portuguesa, teve uma mãe branca e uma mãe preta, desde que ele abriu os olhos. Foi o racismo daquela colônia que jogou ele na política", afirma Vavy Borges. "E assim ele continua, ele nunca passou de incendiário a bombeiro. Ele gosta de falar hoje em dia - 'fora, Temer!'. ele vai nas passeatas, coisa que invejo muito, porque com 86 anos, ele não tem medo de correr de bomba", contextualiza a historiada e biógrafa de Ruy Guerra.

(Para ouvir a entrevista com Vavy Borges na íntegra, clique acima na foto que ilustra esta matéria)

 

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