rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
RFI CONVIDA
rss itunes

“Brasil atual lembra momentos sombrios da história do país”, diz escritor Godofredo de Oliveira Neto

Por Adriana Brandão

O escritor e professor titular de literatura brasileira da UFRJ, Godofredo de Oliveira Neto, veio à Europa dar uma palestra sobre seu romance “O Bruxo do Contestado”. Em entrevista à RFI, ele lembra a importância dessa revolta messiânica do sul do país, ocorrida no início do século 20, que ainda ajuda a entender o Brasil de hoje. “O momento atual me lembra momentos sombrios da história brasileira”, compara o escritor.

“O Bruxo do Contestado” é o primeiro dos 10 romances de Godofredo de Oliveira Neto. Ele foi publicado inicialmente em 1996, teve excelente crítica e já está na quarta edição. O livro entrelaça três períodos históricos, o presente da narradora, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Contestado.

Essa Canudos do sul do país, foi uma revolta de sertanejos pobres por terras, liderada pelo monge José Maria. Ocorrida durante 1912 e 1916, em um território contestado por Santa Catarina e Paraná, ela foi massacrada pelas forças governamentais. Mais de 3,5 mil fiéis foram mortos.

Ao contrário de outros livros de Godofredo, como “O Menino Oculto” ou “Amores Exilados” que já foram publicados na França pela Envolume, "O Bruxo do Contestado" ainda não foi traduzido. Mas o romance, que foi tema de uma palestra do escritor brasileiro na Universidade Ca’ Foscari de Veneza, interessa os europeus, primeiro pela questão do messianismo e, segundo, devido a situação dos imigrantes alemães e italianos no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

“O Brasil declarou guerra ao eixo apenas em 1942. Até então, havia uma hesitação do governo Vargas. Ficou um pouco esquecido como era a vida desses imigrantes, que foram inclusive proibidos de falar suas línguas maternas em público. O Matarazzo recebeu uma condecoração do Mussolini. Tinha uma dúvida do certo e do errado”, aponta Godofredo.

A declaração de guerra e o envio dos pracinhas da FEB para lutar na Itália, cria um conflito para esses imigrantes: “os italianos foram enviados para matar primos na Itália e houve um conflito contra isso. Eles diziam não queriam atirar nos parentes”. Godofredo lembra que essa é uma questão pouco desenvolvida no Brasil.

Contestado: conflito ideológico

A Guerra do Contestado foi, segundo Godofredo, um dos conflitos fundamentais para o entendimento da questão da disputa entre capitalismo e socialismo no século 20. Lideranças internacionais, russas ou inglesas, enviaram representantes para acompanhar essa revolta messiânica, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, que foi vista como o “primeiro movimento de greve organizada do país”. O escritor lembra que foi “a primeira vez que empregaram aviões com fins militares no continente americano. Armas, que seriam usadas na Primeira Guerra mundial, foram testadas”.

Godofredo não tem dúvidas de que essa guerra messiânica de pobres contra ricos ainda ajuda a entender o Brasil de hoje. “Esse messianismo saiu do campo e foi para a cidade. Os discursos do Antônio Conselheiro ou do monge José Maria, de que as coisas vão melhorar, é uma coisa que pega. Os fiéis, ou fanáticos, querem comida e saúde agora (e não na vida eterna)”, analisa.

Momento brasileiro difícil

Para o professor titular de literatura brasileira da UFRJ, o Brasil atravessa um momento difícil, de tensão entre a Justiça e a política. “Não é um momento de glória”.

O escritor afirma que não faz obras panfletárias, mas que “tenta transformar fatos políticos e sociais em estética”. “Mas meus livros não perdem de vista essa realidade que, repito, é uma realidade bastante difícil, que me lembra alguns momentos e épocas sombrias do Brasil”.

Pressões sobre a escrita

Como em outros de seus livros, o romance “O Bruxo do Contestado” tem cenas eróticas, de sedução. Nesse momento de críticas ao tratamento dado às mulheres e à questão feminina, Godofredo reconhece que sente uma certa pressão, um certo patrulhamento: “Há um certo conservadorismo em todos os aspectos, como na política, e não podia não ter também nos hábitos culturais”. Mas o escritor brasileiro não aborda a censura que sofreu na França. A editora Evolume cortou as passagens sexuais mais ousadas de seu livro “Amores Exilados” para não chocar os leitores.

A tradução do “Bruxo do Contestado” está sendo negociada e, no mês de agosto, chega às livrarias francesas a segunda edição de “O Menino Oculto”. “Fico super feliz por esse interesse. Vivi muito tempo aqui na França (na época da Ditadura Militar) e vejo que, infelizmente, o Brasil perdeu um pouco o interesse por aqui”, lamenta.

“Europeu gosta de música brasileira com contexto histórico”, diz cantor Mario Bakuna

Decreto de Bolsonaro sobre armas trará mais violência, alerta Instituto Sou da Paz

"Bolsonaro afeta a imagem do Brasil", diz Fernando Henrique Cardoso em Paris

“Bolívia deu uma lição de moral no Brasil ao extraditar Battisti”, diz ex-deputada ítalo-brasileira

“Passamos 80% do nosso tempo negociando”, diz criador de novo método de negociação e gestão de conflito

Brasil será interlocutor dos EUA nas relações com Maduro, aponta pesquisador

Especialista da UFMG sobre política do novo governo: “No Brasil, índio bom é índio morto”

Relações entre Brasil e França vão se deteriorar com política ambiental de Bolsonaro, diz pesquisador

Pianista brasileiro investe no Tango para seu primeiro concerto parisiense

“Com FUNAI já era difícil demarcar terras indígenas, com ruralistas será mais complicado” diz ativista de ONG

Projeto político de Bolsonaro cria desconfiança na Europa, diz historiadora francesa

"Congresso muito fragmentado será obstáculo para governo Bolsonaro", diz professor da UERJ

“Bolsonaro começa mandato pressionado e tem três meses para mostrar a que veio”, diz especialista em economia.

Autora brasileira radicada na França lança livro de memórias de viagens na Amazônia

"Intervenção federal no RJ também foi marcada pela falta de transparência e respostas sobre violações", diz coordenador de Observatório

Direitos Humanos no Brasil: perspectivas para 2019 são preocupantes, diz advogada da OAB

“Postura de Bolsonaro com a imprensa tem inspiração autoritária”, diz Eugênio Bucci

Congresso será a maior dificuldade para aprovar medidas contra a corrupção, diz fundador da ONG Contas Abertas

“Brasil poderá crescer até 3,5% em 2019 se aprovar reformas”, afirma economista