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Berlinale 2018 Cinema Cultura assédio sexual

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Engajada, 68ª Berlinale começa em pleno debate sobre assédio sexual no cinema

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A 68ª Berlinale será realizada entre 15 e 25 de fevereiro. REUTERS/Hannibal Hanschke

O 68° Festival internacional de cinema de Berlim, conhecido também como Berlinale, abre suas portas nesta quinta-feira (15) respeitando sua tradição de celebração do cinema autoral mais engajado, vindo dos quatro cantos do planeta. Esta edição do evento também é marcada pelo #MeToo, movimento de defesa das mulheres desencadeado após o escândalo de assédio em Hollywood. Os organizadores chegaram a excluir da programação filmes realizados por diretores ou produtores acusados de agressões sexuais.


Enviado especial a Berlim

A competição oficial da Berlinale começa com o filme de animação Isle of Dogs, do cineasta americano Wes Anderson. Porém, mesmo se essa é a primeira vez na história do evento que um desenho animado abre a corrida pelo Urso de Ouro, o que mais tem chamado a atenção neste início de edição é o fato de que o festival é o primeiro do ano após a revelação dos escândalos de assédio sexual no mundo do cinema.

Antes mesmo das primeiras projeções, o tema já foi levantado pelo diretor do festival, Dieter Kosslick. Durante a entrevista coletiva que antecedeu a abertura, ele anunciou a realização de um debate para discutir mudanças concretas para que mulheres e homens sejam tratados da mesma maneira na indústria cinematográfica. Apesar da iniciativa, o diretor ressaltou que apenas quatro dos 10 filmes na competição principal foram assinados por diretoras. “Não é muito, mas já é alguma coisa”, disse, quase em tom de desculpa.

Já sobre a questão do assédio, Kosslick afirma ter excluído alguns filmes cujos produtores, diretores ou membros da equipe tenham sido alvo de acusações de abuso sexual. “A ressonância internacional do #MeToo mostrou que não se trata de um problema limitado a Hollywood”, declarou o diretor, que deu os nomes dos filmes vetados. Mas, segundo informações dos bastidores, menos de cinco produções foram atingidas por essa medida.

Os organizadores também preferiram não comentar as alegações de que o diretor sul-coreano Kim Ki-Duk, que teve um filme selecionado para a mostra Panorama, é alvo de uma acusação de agressão sexual visando uma de suas atrizes. A jovem, que preferiu não se identificar, acusou a Berlinale de hipocrisia.

Mas Kosslick, que dirige a Berlinale desde 2001 e pilota o evento pela última vez antes de se aposentar, prefere manter um tom irônico, apesar do tema sensível. “Lembro que não temos nenhum dress code e que nunca reclamarei se uma mulher subir as escadarias sem usar salto alto”, comentou durante a semana. A declaração provocou risos já que, ao contrário dos demais festivais de cinema europeus, que acontecem durante o verão, o evento alemão é realizado em pleno inverno no hemisfério norte, o que faz com que o desfile de vestidos decotados e pernas de fora seja bem menos presente quando os termômetros registram, tradicionalmente, temperaturas negativas.

Além de Isle of Dogs, concorrem ao Urso de Ouro o francês 3 Days in Quiberon, de Emily Atef, sobre a atriz austríaca Romy Schneider, o filipino Season of the Devil, de Lav Diaz , os norte-americanos Damsel, de David e Nathan Zellner, e Don’t Worry, He Wont’ Get Far on Foot, de Gus Van Sant, o russo Dovlatov, de Alexey German Jr., os franceses Eva, de Benoit Jacquot, e La prière, de Cédric Kahn, o italiano Figlia mia, de Laura Bispuri, os alemães In den Gängen, de Thomas Stuber, e Mein Bruder heißt Robert und ist ein Idiot, de Philip Gröning, e Transit, de Christian Petzold, o iraniano Khook, de Mani Haghighi, o mexicano Museo, de Alonso Ruizpalacios, o sueco Toppen av ingenting, de Måns Månsson e Axel Petersén.

Completam a seleção Touch Me Not, da romena Adina Pintilie (Roumanie), o polonês Twarz, de Małgorzata Szumowska e o norueguês Utøya 22. juli, de Erik Poppe, que conta a história o atentado cometido por Anders Behring Breivik na Noruega em 2011. A lista de concorrentes também inclui Las herederas, uma coprodução entre Brasil, Paraguai, Alemanha, Uruguai, Noruega e França, dirigida pelo paraguaio e estreante na ficção Marcelo Martinessi.

O júri da competição principal é presidido pelo diretor e compositor alemão Tom Tykwer, e conta com a presença da atriz belga Cécile de France, da produtora norte-americana Adele Romanski, da crítica da revista americana Time Stephanie Zacharek, do compositor japonês Ryuichi Sakamoto e do espanhol Chema Prado, historiador do cinema.

A Berlinale exibe cerca de 400 filmes vai até 25 de fevereiro.