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Detentas ganham visibilidade em exposição de fotos em castelo francês

Por Patricia Moribe

São mulheres invisíveis que se transformam em fotografias em grande formato, da cintura para cima. São de todas as idades, tamanhos e cores. Umas encaram o visitante, outras sorriem, ou desviam o olhar. Há um nome, um local, uma data. Nada mais. Mas pelo título, “Détenues” (“detentas”), sabemos do que se trata.

A fotógrafa Bettina Rheims visitou durante alguns meses quatro prisões femininas na França. Mais de cem detentas foram voluntárias para o projeto da artista, consagrada por suas fotos mais glamourosas, de personalidades como Catherine Deneuve, Monica Bellucci ou a foto oficial do então presidente Jacques Chirac. O resultado é uma mostra com 64 imagens expostas na capela do Castelo de Vincennes, nos arredores de Paris.

Para a série, a artista montou um estúdio improvisado, com um fundo branco, que não lembra em nada um cárcere. E uma mesma banqueta, sem apoio, sem dorsal. Um suporte e, ao mesmo tempo, um assento que provoca desconforto. A modelo teve a liberdade de escolher sua própria roupa e de se maquiar, se quisesse.

“Em primeiro lugar, eu queria que elas fossem vistas. É um universo com poucos homens, elas sofrem com a falta do olhar. Eu tentei que o meu olhar fosse o mais neutro possível. Não especificamente um olhar de mulher, mas de alguém que olha uma mulher. Acho que isso fez bem a elas”, diz Bettina Rheims.

Thérèse, por exemplo, é uma mulher de uns 60 anos, cabelos curtos, grisalhos, óculos, blusa cinza. Tudo é cinza nessa pessoa que poderia ser uma bibliotecária de feições sisudas. Já Lu, com um olhar longe, não parece ter mais de 20 anos, e vem com um vestido listrado que mostra no decote a tatuagem de um ideograma oriental. Niniovitch encara a câmera, sem expressão, mas uma grossa lágrima corre por seu rosto.

"Niniovitch II, novembre 2014, Roanne". @ Bettina Rheims

“Quando eu começo uma série, um projeto, e pego na câmera, são também os meus medos que tento exorcizar. Sou uma mulher livre, nunca fiquei em estado de prisão. Eu não queria um ambiente específico, não era para ser uma reportagem, não há informações, eu queria que a detenção se lesse nos olhos delas, que seja qual for a pena ou a razão de ter sido presa, aquilo quebra algo dentro da pessoa”, conta Bettina Rheims.

Nadeije Laneyrie-Dagen, professora de história da arte na Escola Normal Superior de Paris, autora do texto do livro sobre a exposição, vem acompanhando com interesse o trabalho engajado de Bettina Rheims. “É um trabalho cada vez mais militante, com um olhar muito observador sobre o combate das mulheres e o estatuto de algumas delas, como no caso, as presidiárias”, diz.

"Eve Schmitt II, novembre 2014, Roanne". © Bettina Rheims

“Minha primeira reação ao ver as fotos foi menos de análise estética da foto, mas de intimidade, emoção e surpresa”, conta Laneyrie-Dagen. “As mulheres ali podiam ser parte da minha vida. Poderiam ser comerciantes, colegas, mães. De maneira absurda, eu tinha a ideia preconcebida de que uma delinquente, uma presa, mostraria isso claro no rosto. Mas não. A impressão é de familiaridade e é um primeiro choque emotivo”, explica.

Entre as fotos que mais a impressionaram, a historiadora cita a de uma jovem, de cabelos curtos, de ar moleque. “Quase uma criança. Impossível não pensar como é que ela foi parar ali e qual futuro o destino lhe prepara”, diz Nadeije. “Outra foto que me marcou foi de uma mulher mais madura, mas muito bonita, que puxa o decote da blusa para revelar uma tatuagem na altura do coração”.   

"Ramy, octobre 2014, Poitiers Vivonne". @ Bettina Rheims

O livro da exposição traz alguns fragmentos no final, onde a fotógrafa conta o que as presas lhe diziam, espontaneamente. Falam sobre os crimes que cometeram, sobre sonhos, suas dores, seus amores.

O Castelo de Vincennes, nos arredores de Paris, é uma fortaleza construída entre os séculos 14 e 17. Depois de residência oficial de monarcas, prisão (onde ficou detido o marquês de Sade) e arsenal, a construção agora é uma atração turística para se conhecer a vida na Idade Média, além de abrigar o serviço de memória da Defesa.

A exposição “Détenues” fica em cartaz na capela do castelo até 30 de abril. Depois a mostra segue para o Castelo de Cadillac, no sudoeste da França, de 1° de junho a 4 de novembro.

 

 

Exposição "Détenues" (detentas), no castelo de Vincennes. @Patricia Moribe

 

 

 

 

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