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Protestos contra assédio marcam festival independente de música feminina na França

Por Daniella Franco

O maior festival dedicado à música feminina independente da França, o Les Femmes S'en Mêlent, chega a sua 21a. edição neste ano. A partir deste fim de semana até o dia 5 de abril, quase 40 artistas e bandas integradas por mulheres sobem nos palcos parisienses e de várias outras cidades francesas. Neste ano, o movimento feminista que ganhou o mundo após o escândalo Harvey Weinstein dá o tom do festival.

No line-up do Les Femmes S'en Melent (As Mulheres se Implicam), nomes já conhecidos na cena musical alternativa, como o trio anglo-islandês Dream Wife, a britânica Findlay e a dupla Peter Kernel, mas também artistas e grupos que começam a se despontar e a chamar atenção da crítica, como a francesa La Pietà, a rapper suíça KT Gorique e o quinteto Pink Kink, apontado como uma das grandes promessas do punk rock britânico.

Outro grande destaque desta edição do Les Femmes S'en Mêlent é a performance da escritora francesa Virginie Despentes - uma das principais autoras francesas da atualidade. No festival, ela faz uma leitura de trechos da obra "Requiem dos Inocentes", de Louis Calaferte, em companhia do grupo Zëro.

Para o diretor do festival, Stéphane Amiel, a presença de Virginie Despentes deu o tom desta edição. "Temos várias artistas que soltam o verbo em prol de seu combate, do ativismo e da denúncia. A presença de Virginie Despentes orientou o festival para esse caminho. Por isso, neste ano temos bastante hip-hop e rap, além de artistas como a francesa La Pietà, cujas letras das músicas nos remetem aos textos de Virginie Despentes, mas com um lado mais electro rock. Então, essa é a cor desta edição."

A liberação das palavras das mulheres, após o escândalo Harvey Weinstein, e o surgimento dos movimentos Me Too - cujo o equivalente na França é o Balance Ton Porc (Denuncie Seu Porco) -, também marcam o Les Femmes S'en Mêlent deste ano. "Esse episódio abalou mais do que o cinema, mexeu com toda a sociedade, e especialmente com as artistas mulheres. Houve um eco imenso deste movimento de denúncia em todo o mundo e imagino que ele será levado aos palcos do festival. Afinal, Les Femmes s'En Melent também é um local de debate, embora não tenhamos um discurso oficial no evento: deixamos a critério das artistas se expressarem como quiserem", diz Amiel.

La Pietà: a artista mais feminista da Terra

Ela vem conquistando o público francês com sua poesia ácida e o mistério em torno de sua identidade que leva aos palcos, apresentando-se mascarada. A francesa La Pietà, um dos destaques do Les Femmes S’en Melent deste ano lançou no último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a faixa "La Fille La Moins Feministe de La Terre" ou a garota menos feminista da Terra, um provocante manifesto feminista.

Claro, o nome da música é pura ironia e se baseia em episódios que a artista viveu ou presenciou em diversas ocasiões de sua vida, até mesmo no mundo da música. "Não quero que me digam que eu venderia mais discos se eu me exercitasse mais, se eu tivesse a barriga chapada, se eu me calasse mais uma vez", recita La Pietà. Sarcástica, ela insinua na letra que não se engajar ao feminismo é uma escolha feita por pudor. "Tenho medo de não aguentar, canta na música, antes de relatar uma série experiências pessoais e não incomuns a qualquer mulher.

Consciente da força de suas letras, La Pietà conversou com a RFI sobre porque seu lema é "não agradar, mas incomodar". "Quando comecei esse projeto, refleti muito sobre o que significava fazer música no século 21 na França. Antes do La Pietà, havia assinado um contrato com uma grande produtora musical e me obrigaram a fazer música pop para passar na rádio e vender o máximo de discos e bilhetes de shows. Dentro desta lógica comercial, é preciso sempre agradar todo mundo. Mas eu me formei em História da Arte, o que me fez questionar o que é ser uma artista e, para mim, é justamente o contrário disso. E o que eu quero neste momento da vida não é fazer as pessoas dançarem em uma boate, mas refletirem: eu tenho outras coisas a oferecer", diz.

Consciente do domínio do mercado da música pelos homens, La Pietà, que não se considera uma ativista, mas "uma humanista", lamenta a necessidade de realização de eventos para a valorização da produção musical feminina: "o normal seria que eles não precisassem existir". Mas reconhece que é graças a eles que as mulheres podem ter um pouco mais de espaço na música, já que percebe que a divisão dos holofotes não é equalitária. Até mesmo quando recebe elogios, percebe que o machismo, ainda que velado, é presente. "Muitos me dizem que eu sou uma artista com culhões. Sinceramente, não sei se devo achar isso bom ou ruim", brinca.

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