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“Maio de 68 foi uma explosão de criatividade, às vezes caótica”, diz Frédéric Pagès

Por Elcio Ramalho

Estudante do segundo ano de Ciências Políticas e de Direito da Sciences Po durante Maio de 68, o escritor, cantor e jornalista Frédéric Pagès viveu no “palco da história” a efervescência do movimento que marcou uma geração de franceses e teve repercussões mundiais.

A experiência do período e o impacto que teve em sua trajetória pessoal e profissional estão registrados no livro Mai 68 est devant nous (“Maio de 68 está diante de nós”, em tradução livre), lançado neste mês pela Editora Yves Michel. A obra é assinada por Pagès e outros dois amigos, Jacques Brissaud e Olivier de la Soujeole.

Juntos, eles relembram, com o intervalo de cinco décadas, a iniciativa de registrar a documentação que circulava nas ruas e no circuito universitário nos dias que transformaram Maio de 68 em um período de contestação e rompimento da ordem social.  

“Quando o movimento começou a tomar um rumo mais profundo de contestação da sociedade global, saíam muitos panfletos, artigos, revistas e manifestos. Na época, não tinha internet, digitalização dos documentos. Os panfletos se perdiam, eram jogados no lixo. Tinha muita documentação, mas muitas vezes ela não circulava muito”, conta Pagès.

Na entrevista à RFI Brasil, ele lembra que no dia 11 de maio, enquanto as barricadas de espalhavam pelo centro de Paris, teve a ideia de criar um centro de documentação do Movimento de Maio de 68. “O objetivo era reunir, guardar e redistribuir para a imprensa e outras instituições interessadas no que estava acontecendo”, explicou.

“A imprensa sensacionalista muitas vezes focava sua cobertura em aspectos relacionados à violência, como carros queimados, vitrines das lojas quebradas e conflitos entre os estudantes e policiais. O conteúdo do movimento era pouco divulgado”, recorda.

A iniciativa foi formalizada e deu origem ao Centro de Regrupamento de Informações Universitárias (CRIU, na sigla em francês), com as devidas autorizações dos principais movimentos envolvidos na contestação como o Sindicato dos Estudantes, de Professores, e dos chamados “Comités d’actions” (Comitês de Ações).

O centro conquistou também o apoio do coletivo “Peuple et Culture”, (Povo e Cultura, em português), instituição surgida durante o movimento de resistência francesa na Segunda Guerra Mundial. “Os resistentes abriram seus escritórios e nos deram os meios para trabalhar, como mimeógrafo e salas de reunião para os encontros. Eram os meios de comunicação da época ”, recorda.

Até a Igreja de Saint-Sulpice, que ficava na frente do escritório usado pelo grupo de estudantes, também abriu suas portas para as reuniões.

Documentos “jogados no lixo”

Os documentos recolhidos até o dia 15 de junho, quando o movimento já tinha perdido força, foram reunidos na obra “Quelle Université? Quelle Société?” (Qual Universidade? Qual Sociedade?, em português) publicada em julho de 1968 pela editora Seuil,  uma das principais do país. “O prazo foi recorde”, lembra Frédéric Pagès.

Os artigos e textos eram sempre assinados por entidades ou grupos, e nunca por autores individualmente, respeitando uma prerrogativa estabelecida pelos movimentos da época.

Uma pequena parte desse material foi preservada por Pagès e exibida no livro atual, mas a maioria dos documentos da época ficou guardada no porão da associação que acolheu o CRIU. Anos depois, quando o prédio passou por reformas, o material foi jogado no lixo e desapareceu.

Além do resgate da memória dos principais momentos vividos durante Maio de 68, Pagès e os outros dois autores da obra promovem uma reflexão crítica da influência do período em suas respectivas carreiras profissionais.

Projetos no Brasil inspirados em Maio de 68

No livro, Pagès atribui parte de seu trabalho desenvolvido no Brasil, para onde viajou pela primeira vez em 1979 de navio, como resultado direto da inspiração da época de estudante em Paris. Em 2012, ele coordenou o projeto Manual de Literatura (En)Cantada, feito com cantores de hip hop de Diadema, na grande São Paulo.

Ele contratou um grupo de 10 profissionais e, por meio de ateliês, musicou textos de poesias e de literatura, incluindo clássicos de Machado de Assis, Cruz e Sousa, Mário de Andrade e também de escritores contemporâneos. “A ideia era criar um manual para professores de português abordarem certos textos literários, de maneira prazerosa, sonora, com ritmo. É uma forma de abordar a literatura de maneira menos discriminatória. Assim, você pode introduzir informações sobre quem foram esses escritores. Depois que você experimentou e saboreou a poesia deles, você pode depois passar para a erudição. Essa é uma pedagogia diretamente inspirada do que foi pensado e refletido durante Maio de 68”, afirma.    

 

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