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Casa da Moeda de Paris traz primeira retrospectiva do indiano Subodh Gupta na França

Por Márcia Bechara

Adda é um termo hindu que significa encontro, ou rendez-vous, em francês. O tema dá nome à primeira retrospectiva do artista indiano Subodh Gupta na França, em cartaz na Casa da Moeda de Paris até 26 de agosto de 2018.

O repertório de Gupta, extenso e multiforme, finca raízes em sua infância na Índia, na pequena e ancestral cidade de Bahir, onde nasceu em 1964, para se projetar como memória crítica e reflexão contemporânea sobre o mundo do século 21.

"A maior parte do trabalho que você vê no início da minha carreira, quando comecei a fazer arte, tem a ver com a memória da minha infância. O que eu via, o que experimentei, como cresci: eu me expresso na minha arte. Hoje, os novos trabalhos têm a ver com o mundo em que vivo. É tudo sobre a vida", diz o artista.

People Tree, 2018 , Subodh Gupta, Monnaie de Paris Reprodução vídeo

No pátio de entrada da Casa da Moeda de Paris, o visitante é recepcionado por uma árvore grandiloquente, cujas raízes literalmente se esparramam pelo chão. O impacto visual da escultura se deve diretamente ao material de que é feita: o aço inox dos utensílios de cozinha, matéria-prima que, na Índia de Gupta, significa poder aquisitivo, classe social, mas também o ato coletivo de cozinhar e de comer.

O artista, que trabalha numa estética que chama de "acumulação", faz assim a crítica de uma sociedade contemporânea que coleciona excessos e, ao mesmo tempo, perde batalhas importantes como a vencida pela fome. O trabalho mais famoso de Gupta, Very Hungry God, ou o Deus Insaciável, uma caveira de proporções monumentais, criada a partir de utensílios de cozinha brilhantes e vazios, talvez simbolize o ápice crítico dessa metáfora.

"Nasci numa família de classe média e, há quinze anos atrás, quando concebi esse trabalho, o aço inox era tão comum, toda casa da classe média, classe média alta, todo mundo tinha, 90% da população usava utensílios em inox, eram objetos muito comuns", diz o artista de 53 anos.

Subodh Gupta diz "amar a cozinha e comida". "Cozinhar não é uma arte: alimentar pessoas, sim. Quando as pessoas se sentam juntas e comem uma refeição que você preparou, elas ficam felizes, conversam, fofocam, e isso é a performance, então eu cozinho e vocês performam", resume o artista.

O trabalho do indiano se aproxima do neorrealismo, movimento que utilizou objetos com conteúdos políticos, como lembra a curadora e diretora de exposições da Casa da Moeda de Paris, Camille Morineau: 

"É um artista que temos certa tendência a ver como alguém que faz montagens de objetos que são, algumas vezes, espetaculares ou divertidos", diz a curadora. "Mas esquecemos que seu trabalho tem um conteúdo frequentemente muito político. Ele fala do mundo de hoje, das tensões contemporâneas, ele pode falar de guerra, de imigração, econômica e política. É alguém que vê o mundo com um olhar bastante crítico", aponta Morineau.

The Water is in the Pot, the Pot is in the Water RFI

A relação de Subodh Gupta com artistas como o francês Marcel Duchamp é explícita na Monalisa com bigode em bronze, assim como a série trazendo vasos sanitários dourados, além da preocupação com as palavras, visível no cuidado que dedica aos títulos de suas obras.

No entanto, ele trabalha também com suportes variados como a performance, a instalação e o vídeo, retraçando, para além da Índia, uma história europeia da arte, com estruturas onde o poético e o político caminham lado a lado. Entre dadaísmo e tradição indiana, Gupta questiona nosso lugar no mundo com a obra The Water is in the Pot, the Pot is in the Water.

"O poeta sufi indiano do século 12, chamado Kabhir, ele diz que 'dentro do vaso, existe um mar'. E 'neste vaso, mora a pedra filosofal'. 'Neste vaso, moram milhares de estrelas'. E o mar. E a floresta", lembra o artista.

" 'Dentro deste vaso, até os deuses procuram'. Basicamente, ele fala sobre todo o Universo, todo o cosmos, tudo o que ele descreve como vaso é um símbolo", conclui Gupta. 

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