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“A ditadura não resiste à música”, afirma compositor multi-instrumentista Hermeto Pascoal

Por Marcos Lúcio Fernandes

Ele é um compositor que se inspira nos sons da natureza para criar suas músicas e lançou seu primeiro álbum nos anos 1970. Dominando mais de oito instrumentos e com várias participações internacionais no currículo, como o renomado Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, ele é um dos artistas mais versáteis e originais do repertório brasileiro. A RFI conversou com o músico brasileiro Hermeto Pascoal.

De passagem por Paris em sua turnê pela Europa, Hermeto fez show na capital num clima todo especial para os franceses, contentes com a chegada da França à final da Copa do Mundo da Rússia. A visita ao velho continente, aliás, é mais uma oportunidade para o artista de reiterar seu argumento de que a música é “universal” e não “regional”. Em um vídeo publicado no Instagram, Hermeto diz que a “universalidade é o que segura o mundo”.

“O Brasil é o país mais colonizado do mundo. Meu pai era descendente de europeu, a Europa está totalmente no Brasil, o que acontece é que não tem nada de diferente em lugar nenhum. A semelhança prenomina no mundo, o que eu chamo de música universal é isso”, declara o compositor. “Eu não faço músicas diferentes das outras do mundo, da africana, da não sei o quê. A diferença é criada pelos políticos, com o interesse de ganhar posições. A posição que eu quero ganhar é essa, de estar aqui, fazendo esse sucesso.”

Hermeto Pascoal durante show em Paris Marcos Fernandes/RFI

Música como arma contra a crise no mundo

Por falar em política, Hermeto afirma que a arte musical é uma arma poderosa contra os períodos de crise na humanidade e ressalta o lado transformador de uma melodia. “A música é uma das joias que salvam o mundo. Cansei de fazer show e escutar das pessoas ‘Obrigado por me fazer sorrir’. Na época da ditadura, onde eu tocava no mundo, o público vinha no camarim me cumprimentar e agradecer – aliás, eu não, a música! A ditadura não resiste à música. Nada resiste à música. Nada, nada, nada.”

Hermeto gravou em seu último disco Made of Music, a canção “Copo d’água”, em que brinca com o líquido para produzir sons, performance que ele reproduziu em seu show em Paris. Em 1977, em Slave’s Mass, o músico gravou com porcos a célebre “Missa dos Escravos”. Após cerca de quatro décadas de atividade e no meio de tanta originalidade, o compositor garante que nenhum objeto ou som ficou esquecido.

“Esses sons da minha existência continuam comigo, não são coisa do passado. Quando o passado é forte, ele fica presente, sempre. Ele faz parte do que chamo de escada da vida, começa a subir do primeiro degrau e não para mais”, diz. “Estou com meus 82 anos sem parar. Minha alegria imensa é não premeditar, não chamar, as coisas que venham até mim, porque estou com minha mente sempre aberta.”

Processo criativo intuitivo

Pata Hermeto, o processo de criação artística não segue nenhum modelo e deve ser fluido. “O que eu sinto, eu faço. Gravei com um copo de água, então as pessoas pensam que eu vou usar sempre isso, e às vezes não, porque no meu pensamento não veio. Eu vivo do meu pensamento. O copo com água me lembra dos rios, de quando eu era menininho, de quando eu brincava com água e fazia sons e as crianças iam correndo dizer aos meus pais que eu era louco.”

Quanto ao segredo da boa forma, Hermeto garante que é nada menos que a energia criativa que corre nas veias. “Eu sou criança. Meu corpo não, mas eu sou. Se meu corpo está aguentando é por causa da energia, ela ajuda muito esse ‘carro’ que eu ganhei para andar na Terra a aguentar muito mais. Deus não quer formalidade, em nada, então na música eu sou assim, completamente informal.”

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