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“Discussão sobre identidade de gênero no teatro é uma tendência mundial”, diz professora da USP que acompanha o Festival de Avignon

Por Maria Emilia Alencar

“Vejo um grande paralelismo atualmente entre a discussão sobre gênero na França e no Brasil”, diz Maria Lúcia Pupo, professora de teatro da USP e orientadora de muitos doutorandos no Brasil. Frequentadora assídua do maior festival de teatro da França, ela exalta a programação desse ano focada na diversidade e identidade de gênero.

A especialista cita um espetáculo que chamou particularmente a sua atenção, encenado todos os dias em um jardim da cidade medieval: “Mesdames, messieurs et le reste du monde” (em tradução livre “Senhoras, senhores e o resto do mundo"), dirigido pelo francês David Bobée. Trata-se de um folhetim teatral em 13 episódios que discute os tabus e preconceitos ligados à diversidade sexual.

“É um espetáculo muito bem feito. O elenco trabalha com uma antologia de textos que mistura depoimentos, testemunhas e estatísticas sobre questões de gênero. O tema central é a relação entre maioria e minorias e os diferentes capítulos desse folhetim abordam 24 itens da lei francesa que proíbe diferentes tipos de discriminação. É fascinante, porque você começa a perceber que somos todos membros do mesmo grupo humano”, relata Maria Lúcia.

Perplexidade e estranhamento

A professora da USP acredita que a programação do Festival de Avignon esse ano é extremamente útil para ampliar a visão dos espectadores que ainda não estão habituados com esse tipo de questionamento. “Nós vemos aqui em Avignon um público de pessoas mais velhas, bem diferente do público de teatro no Brasil. Eu percebo realmente uma perplexidade, um estranhamento. Mas isso é muito bom, porque vivemos uma época em que vemos as categorias se deslocarem e adquirirem novos contornos. É muito importante que todo mundo se questione sobre esses temas”, diz ela.

Maria Lúcia Pupo lamenta que o teatro brasileiro esteja ausente da programação desse ano do Festival de Avignon. “Infelizmente”, afirma. “Não houve interesse do Festival em olhar com mais atenção o teatro brasileiro. Se o tivessem feito teriam descoberto espetáculos interessantíssimos sobre a questão de gênero.”

Ela cita um movimento expressivo no Brasil de atores transgêneros que reivindicam o fato de fazerem papeis transgêneros que, segundo eles, nunca poderiam ser interpretados por heterossexuais. “A batalha está crescendo, o debate está muito acirrado.”

A professora acha que o teatro brasileiro tem obras muito inovadoras sobre essas questões para mostrar no exterior e em particular em um Festival tão importante como o de Avignon. Para Maria Lúcia, o Brasil está totalmente sintonizado com a tendência mundial de discussão sobre a identidade de gênero.

O Festival de Avignon vai até o dia 29 de julho no sul da França.

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