rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
RFI CONVIDA
rss itunes

"Existe um índio dentro de cada brasileiro", diz Ernesto Neto, em cartaz com a escultura monumental GaiaMotherTree na Suíça

Por Márcia Bechara

De 30 de junho a 29 de julho de 2018, a Fundação Beyeler apresenta na Estação Central de Zurique uma instalação do artista brasileiro Ernesto Neto, nascido em 1964 no Rio de Janeiro. A obra monumental GaiaMotherTree é uma escultura de árvore em material policromado, crochetado manualmente a partir de fitas de algodão multicoloridas, que se estendem até o teto do hall da estação de trens suíça, a 20 metros de altura. Neto é o convidado do RFI Convida desta sexta-feira (27).

*Para ouvir a entrevista na íntegra, clique na foto acima

A arte de Neto é marcada pelo neoconcretismo brasileiro dos anos 1960, pelo minimalismo, pela arte conceitual e pela arte povera. Espiritualidade, humanismo e ecologia têm uma influência decisiva em seu trabalho. Desde o início dos anos 90, suas obras se distinguem por suas técnicas e materiais atípicos e materiais orgânicos e biomórficos são característicos de suas esculturas e instalações.

"Quase todo o material utilizado em GaiaMotherTree é industrial. A confecção da obra é artesanal. É como se a gente devolvesse a essa matéria industrial uma artesania que talvez estivesse em sua origem. De alguma forma, trazer isso para o lugar da mão é trazer para a intimidade", conta Ernesto Neto.

Segundo o artista, a história de seu trabalho como um todo está ligada ao "lugar da intimidade". "A obra acontecer dentro da estação de trens é curioso, porque a estação é um espaço de vai e vem. As pessoas estão em trânsito, sempre entre um lugar e outro. Poder ter uma relação com a escultura, seja entrando nela, tirando o sapato, relaxando e ficando um tempo ali, marca esse tempo", diz o artista.

"Essa escultura é toda ligada com a gravidade, pensando na Natureza. É interessante esse negócio de se relacionar. É o 'entre'. Quando a gente aperta a mão de uma pessoa, entre uma mão e a outra tem isso que a [grande artista moderna brasileira] Lygia Clark chamou de 'linha orgânica'. Esse 'entre' é também o espaço do transporte. Estamos entre nossa casa e nosso trabalho, entre nosso país e outro país", lembra Neto.

Colaboração com índios Huni Kuin e indignação em relação ao Brasil

Sobre seu trabalho com a tribo amazônica, Ernesto relata que é uma "força enorme". "Não só é uma força muito sábia, muito poderosa, como está dentro: existe um índio dentro de cada brasileiro", lembra. "Há cinco anos eu tive a oportunidade de encontrá-los. Essa relação do meu trabalho com a necessidade de compreender a Natureza, de se aproximar dela, nós que nos afastamos dela através da cultura. Fizemos uma aproximação dentro do possível, tendo a arte como mediadora", conta o artista.

Ernesto Neto critica a pretensa objetividade da sociedade contemporânea, e se emociona ao falar do momento político brasileiro. "A arte é o lugar da subjetividade. Esta sociedade se diz objetiva. Fico muito na dúvida se nossas crenças políticas são realmente objetivas. Muitas vezes beira o irracional. basta ver o que está acontecendo no Brasil hoje", diz Neto.

"É uma coisa grotesca, a polícia mata brasileiros, que são assassinados todos os dias. No Rio de Janeiro, onde moro, principalmente e gratuitamente. Ainda saem na televisão, dizendo que eram traficantes, o que é uma vergonha", afirma.

"GaiaMotherTree fala da terra enquanto lugar ecológico e social, já que somos filhos da Terra. Cada vez criamos paredes maiores, carros blindados, que futuro é esse? Será que não é hora de começar a pensar que talvez um pensamento mais social seja a solução? Poderíamos estar tendo uma educação de vanguarda brasileira e estamos tendo uma educação antiquada do século 19 na França", indigna-se o artista.

As perguntas de Neto não param por aí. "Será que vale a pena a elite brasileira, econômica, empresarial, corporativa e dos meios de comunicação continuarem com esta política?", lança. "Dando suporte a uma polícia escravocrata, que mata antes de falar?", questiona o artista brasileiro. "Soube que existem empresários donos de meios de comunicação que moram em Miami porque não conseguem morar no Brasil. Isso é vida?", questiona.

"Vitimização de Lula é estratégia do PT para angariar votos", diz cientista político

Sergio Amadeu: combate à desinformação na rede é importante mas não pode virar censura

“Nosso trabalho é mais valorizado fora do Brasil”, diz Sandra Veloso, do Balé Folclórico de Fortaleza

Ilustradora Suppa e Miguel Falabella criam canal no Youtube para crianças de todas as idades

A carne é um objeto de sedução e excitação, diz Júlio Bressane em Locarno

Calixto Neto dança a “ira” para reinventar “corpos minoritários” no Festival Camping, em Paris

"Rever acordos de paz com as FARC é um risco para novo presidente da Colômbia”, diz historiador

Em Arles, Thyago Nogueira, do IMS, divulga fotografia brasileira contemporânea

Cineasta franco-suíço apresenta filme sobre a busca por entrevista com João Gilberto

Documentário brasileiro “Zaatari” revela força e poesia de refugiados sírios na Jordânia

Crise ameaça renovação da classe científica brasileira, diz Marcelo Viana, organizador do Congresso Internacional de Matemáticos

Revista acadêmica francesa lança número especial sobre crise política no Brasil

Turistas brasileiros cada vez mais interessados em história da arte em Paris

“Riqueza infinita”: apresentador Gilles Bourgarel promove música brasileira há 14 anos na Françar

“Discussão sobre identidade de gênero no teatro é uma tendência mundial”, diz professora da USP que acompanha o Festival de Avignon