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Uruguai é apontado como “ilha progressista” do continente no Festival Biarritz América Latina

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“La Noche de 12 años”, de Alvaro Brechner, abriu esta edição do Festival de Biarritz nesta segunda-feira (24), em presença do diretor. festivaldebiarritz.com

Convidado de honra do festival que ocorre no sudoeste da França, o pequeno país de 3,5 milhões de habitantes, “espremido” entre o Brasil e a Argentina, merece todas as atenções do evento. Uma seção especial é consagrada ao cinema uruguaio, apontado como um dos mais inventivos da América Latina. Mesas redondas abordam a dinâmica produção cultural e intelectual do país e especialistas exaltaram em uma conferência os avanços sociais e econômicos do Uruguai nos últimos anos.


Maria Emilia Alencar, enviada especial a Biarritz

O Uruguai é uma “pepita secreta” – indicam os organizadores desse festival que chega à 27ª edição. Em um debate, organizado pelo Institut des Hautes Ėtudes de l’Amérique Latine (IHEAL), cientistas sociais assinalaram três leis, segundo eles, “progressistas” adotadas pelo país: a legalização da produção e consumo da maconha (primeiro país do mundo), a aprovação do casamento homossexual (2° país do continente depois da Argentina) e a descriminalização do aborto (primeiro país latino-americano depois de Cuba).

A ditadura militar do Uruguai (1973-1985) e o compromisso do país com a sua memória é destacada pelo filme escolhido para abrir o festival, “La Noche de 12 años” de Álvaro Brechner, que já foi ovacionado recentemente no Festival de Veneza. O filme é baseado nos testemunhos de torturas sofridas na prisão por três ex-guerrilheiros tupamaros. Entre eles, o emblemático ex-presidente Pepe Mujica. O longa acaba de ser selecionado para representar o país na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

Em entrevista à RFI em Biarritz, Brechner explicou que o longa foi baseado no livro “Memorias del calabozo” de Mauricio Rosencof e Eleutério Fernandes Huidobro, ex-guerrilheiros detidos com Mujica em setembro de 1973 e confinados durante 12 anos em diferentes prisões.

“Uma viagem à loucura”, disse o cineasta, que centralizou o filme na capacidade de superação e resiliência do ser humano. Ao recolher durante meses os testemunhos dos três, Brechner diz que se preocupou menos em saber “o que aconteceu”, mas sim em compreender “como aconteceu”, ou seja, como os indivíduos desenvolvem “pequenos espaços espirituais e filosóficos de sobrevivência dentro deles mesmos”.

O cineasta Alvaro Brechner festivaldebiarritz.com

Exceção uruguaia

Em diferentes mesas redondas, especialistas convidados pelo festival destacam o que chamam de “reformismo democrático institucional” do Uruguai e lembram o sensato e comovente discurso de posse do ex-presidente e ex-guerrilheiro Pepe Mujica, em 2010, pedindo desculpas pela luta armada ao povo que o elegeu.

A boa performance econômica e social da esquerda no poder no Uruguai (governo Mujica e a continuidade com o atual presidente de esquerda, Tabaré Vasquez) é apontada como uma possível exceção no continente, que vive uma “brutal” virada à direita. O diretor do IHEAL, Olivier Compagnon, moderador de um dos debates, afirmou que o “Uruguai vai bem melhor do que a Argentina e o Brasil atualmente”.

Segundo os especialistas, o pequeno país registra um crescimento econômico satisfatório, enquanto seus vizinhos enfrentam ou enfrentaram recessões. A taxa de pobreza do Uruguai atinge 0,5% da população do país, enquanto a taxa média do continente latino-americano está em torno de 25%.

Vitalidade do cinema uruguaio

Com cerca de 10 filmes exibidos durante o festival – além das produções em competição – o evento de Biarritz mostra um dinamismo particular do cinema uruguaio, em parte movido por uma política estatal de difusão da cultura e pelas leis de incentivo e subvenção. Um cinema que começou a emergir nos anos 2000, com a comédia "Whisky", de Pablo Stoll Ward e Juan Prado Rebella, que iniciaram um estilo de produção local.

Entre os filmes apresentados em Biarritz, destacam-se obras com uma dimensão social e política como “El Hombre Nuevo “de Aldo Garay, sobre uma transexual nicaraguense em Montevidéu ou “El Círculo”, de José Pedro Charlo, que relata o incrível destino de Henry Engler, ex-líder guerrilheiro tupamaro, que se tornou um médico de reputação internacional para o tratamento da doença de Alzheimer.

Ainda na retrospectiva do cinema uruguaio em cartaz no festival, algumas comédias como “Las Flores de mi Familia” de Juan Ignacio Fernandez Hoppe e “La Vida útil” de Federico Veiroj, prêmio de melhor filme no Festival de Havana de 2011. “Solo” de Guillermo Rocamora, comédia sobre um trompetista da Força Aérea que tenta mudar de vida depois de ser abandonado pela mulher, tem seduzido o público de Biarritz.

Na seleção de documentários, vale assinalar o filme “Mundialito” de Sebastian Bednarik, sobre a relação entre ditadura e futebol, muito estreita em todo o continente. Entre as particularidades do surpreendente país sul-americano, os organizadores do festival gostam de lembrar que o Uruguai divide com a Argentina o título de pátria do tango e foi duas vezes campeão da Copa do Mundo.

O Festival Biarritz América Latina termina em 30 de setembro.

*Com a colaboração de Maria-Carolina Pina, redação em espanhol da RFI