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Diretora de teatro brasileira mostra na França os horrores da guerra pelo olhar de crianças

Por Maria Paula Carvalho

Atriz e diretora de teatro brasileira radicada na França há dez anos, Flávia Lorenzi está à frente da Companhia Bruta Flor. Ela conversou com a RFI sobre o espetáculo Les Étoiles de Notre Ciel (As Estrelas do nosso Céu), que estreia em janeiro, no Teatro du Soleil, no leste de Paris.

Assista à entrevista na íntegra no vídeo abaixo 

A peça traz uma visão da guerra através do olhar de crianças e jovens que o destino jogou no coração de diferentes conflitos da história contemporânea. O texto é baseado em duas obras literárias: Paroles d’enfants dans la guerre (Relatos de crianças na guerra - de 1914 a 2004), da autora bósnia Zlata Filipovic, e Derniers Témoins (As Últimas Testemunhas), da ucraniana Svetlana Alexijevich.

“A dramaturgia nasceu a partir desses dois livros. A Zlata Filipovic reúne 17 diários de várias crianças e nós escolhemos fragmentos desses jornais e, enquanto eu fazia a pesquisa, encontrei esse livro da Svetlana Alexijevich, uma obra que conta testemunhos de crianças que viveram a invasão da Alemanha nazista na União Soviética”, explica Flávia Lorenzi. “Anos mais tarde, a autora vai ao encontro dessas pessoas que viveram na fronteira com a Polônia, a Belarus, para saber como elas enfrentaram esse momento da guerra”, completa a diretora.

Tesouros escondidos

Alguns desses documentos ficaram escondidos por décadas, surgindo em nosso tempo para falar dos horrores da guerra. Esses fragmentos de vozes agora se levantam para lembrar à humanidade que "essa coisa" chamada guerra é a história de seres humanos, de vidas destruídas, de famílias separadas, assassinatos, de crianças que se tornam soldados e refugiados famintos.

“Muitos deles sabiam que estavam vivendo situações limites e que poderiam morrer. Os que não morreram em campos de concentração, então com essa consciência, esconderam esses diários que vão ser encontrados anos depois, ao fim da guerra. Alguns nunca foram editados, permanecem em bibliotecas e a Slata fez esse trabalho de reunir esses depoimentos no livro,” conta.

Na peça, os relatos não têm um sentido cronológico, funcionam como uma memória emocional desse período, misturando narrativas que se complementam.

“Para essas testemunhas, escrever era uma maneira de resistir e denunciar essas atrocidades num momento posterior. Eu vejo isso como um gesto de combate contra a realidade que eles viveram,” afirma Lorenzi.

Guerra nunca mais

O espetáculo dá voz a esse desejo de comunicação com o passado, permitindo que tais testemunhas sejam ouvidas, compreendidas, para afirmarem que um outro caminho é possível.
“Existe um certo acaso, esse é um tema que eu sempre gostei desde muito pequena, a guerra sempre me fascinou, e no momento em que eu comecei a pesquisar, estourou a crise dos refugiados”, conta a diretora. “E quanto mais vamos avançando no trabalho, mais ele vai ficando atual, infelizmente, num momento em que vemos o nacionalismo crescente não só nos Estados Unidos, como na América do Sul, no Brasil e na Europa”, afirma.   

O grupo tem ainda outros dois brasileiros: Bruno Stierli, ator, e Janaína Wagner, que assina a criação dos vídeos usados no espetáculo. “ Nós criamos todo um universo de imagens, que não são documentais, mas uma criação mais simbólica do que seria essa infância na guerra”, explica.

Les Étoiles de Notre Ciel fica em cartaz de 11 a 27 de janeiro, no Théâtre du Soleil, na Cartucherie de Vincennes.

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