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Teatro: Milo Rau revê polifonia civilizatória de trilogia trágica com ‘Orestes em Mossul’

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A atriz Susana Abdul Majid, cujos pais nasceram na velha Nínive (imagem ao fundo), vive Cassandra na peça Orestes em Mossul, de Milo Rau, ao lado do ator Johan Leysen, na pele do protagonista de Ésquilo, Agamemnon, que volta a Argos após liquidar Troia. Fred Debrock

O diretor suíço Milo Rau, à frente desde 2018 do teatro NTGent, na cidade de Gante [Gent, no original em holandês], em Flandres, na Bélgica, estreou Orestes em Mossul na última quarta-feira (17), onde propõe a restauração do diálogo civilizatório na Pólis contemporânea. Rau foi o destaque em março deste ano da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MitSP), com peças como “A Repetição” e “Cinco peças fáceis”. Com elenco composto por atores iraquianos e europeus, ele ambienta agora a grande trilogia trágica de Ésquilo em Mossul, cidade milenar do Iraque, em ruínas após o autoproclamado califado de cinco anos do grupo Estado Islâmico. É o eterno retorno de Rau aos grandes massacres contemporâneos (ele acaba de estrear nos cinemas europeus The Congo Tribunal), mas também o retorno da palavra coletiva de Ésquilo, mítico autor de Os Persas, à fronteira simbólica representada pelo Oriente, a partir do olhar de um “católico fervoroso e marxista convicto”. Ele recebeu a reportagem da RFI após a estreia em Gante.


Quando Ésquilo vence o grande concurso trágico de Atenas com a trilogia Oresteia, no século V antes de Cristo, ele instaura uma civilização em cena. A cena grega antecipa sua própria civilização, no melhor estilo das grandes narrativas trágicas. Não é surpreendente que a sabedoria deste levante luminar mediterrâneo tenha se dado conta, há mais de dois mil anos, da performance política enquanto teatro? Ou da performance teatral enquanto Pólis, política, cidade-Estado? A aventura de Ésquilo é de fundação, de fundamento, de pertencimento ao coletivo. Em Orestes em Mossul, Milo Rau recupera o direito civilizatório à palavra e a refunda na terceira maior cidade do Iraque, recém-liberta do domínio jihadista, em uma possibilidade de perdão e reconciliação. O novo espetáculo de Rau estreou na última quarta-feira (17) na cidade flamenga de Gante, onde o suíco, nascido em Berna, dirige o NTGent.

O vetor tempo é também um elemento importante a se comprender nesta empreitada trágico-política. A guerra contra o império persa havia sido vencida há menos de 30 anos quando Ésquilo escreve Os Persas, retratando a grande vitória ateniense, mas a partir do ponto de vista dos vencidos, não dos vencedores. O que a derrota persa teria a ensinar aos cidadãos de Atenas? O que se aprende com as ruínas de um inimigo? As perguntas jorram como bálsamo do pote de Ésquilo. É que a civilização grega, embora suprapatriarcal e escravagista, fincava as raízes desta coisa poderosa chamada democracia, único lugar histórico e político onde talvez perguntas sejam tão importantes quanto respostas. Rau, cristão suíço-alemão, destaca no livro que acompanha a peça uma das afirmações de Ésquilo, na Oresteia: “nada revela a verdade, nada nos relata como as coisas realmente são, nada nos obrigada a compreender, com exceção do sofrimento. A verdade vem com a dor”.

Que sofrimento é esse? Na cena de Milo Rau, o texto coletivo dialoga quase sempre com a história pessoal dos atores, com a consciência límpida de que as biografias de seus performers, colocadas em cena, fazem parte do gatilho de transposição que o teatro opera em termos de linguagem junto ao espectador. “O que acontece quando a arte ocidental, psicológica e formalista, se encontra com esta igualmente radical e estranha arte da revolta [no Iraque]? Meu teatro é o dos encontros, da distância espaciotemporal, da interação humana, das biografias com um texto, de países e culturas”, diz. 

Não à toa, antes de voltar ao Brasil em novembro deste ano, Milo tem pela frente outra tarefa hercúlea, para utilizar o repertório mítico grego: ele vai encenar uma peça sobre Jesus Cristo, personagem visivelmente onipresente na ornamentação barroca das igrejas de Gante, na rica região de Flandres, o lado da Bélgica que fala holandês. Ao final da “via sacra”, Milo Rau quer ir a Roma encontrar o Papa. “É esse o plano”, diz o diretor. Milo sempre tem um plano. No Brasil, em novembro, ele deseja se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo contou à reportagem, após a estreia de Orestes em Mossul.

A atriz Elsie de Brauw vive Clitemnestra em "Orestes em Mossul", de Milo Rau. Fred Debrock

The Congo Tribunal e Lam Gods: os temas ao redor

Alguns temas de Milo Rau se encontram, na verdade, muito perto dele. Como o abordado no documentário The Congo Tribunal, filme que produziu em paralelo ao Parlamento Popular do Congo sobre a guerra civil no país africano, conflito que destruiu uma região do tamanho da Europa ocidental, matando cerca de 6 milhões de pessoas. No filme, Rau explora as causas e razões de uma das “guerras econômicas” mais sanguinárias da história. Não nos esqueçamos de um dos primeiros grandes colonizadores do país africano: a Bélgica, onde hoje Rau produz e por quem é produzido, à frente do teatro nacional flamengo de NTGent. A colonização belga, protagonizada pelo triste e cruel personagem de Leopoldo II, foi um dos grandes símbolos da vilania europeia na África do século 19. Um personagem que nem belgas, nem franceses, nem congoleses estão dispostos a esquecer. Pelo visto, nem o diretor suíço.

É que Milo gosta de remexer em antigas feridas, desenquadrar o status quo, sublinhar as fragilidades para deixar a cena “incontrolável”, para testar a “força do teatro”. Outro tema-totem colocado em cena na peça Lam Gods faz referência ao retábulo do século XV Het Lam Gods, ou “Cordeiro de Deus”, assinado pelos irmãos Van Eyck, precursores da escola flamenga de pintura. A obra, de 1432, fica exposta na Catedral de Saint-Bavon, localizada a apenas alguns passos do teatro de Milo Rau em Gante. A peça foi também a estreia de Rau no teatro da cidade e um “presente para o local” para “homenagear o gesto democrático dos irmãos Van Eyck”.

Nos últimos dez anos, o diretor suíço descreve suas peças como "reconstituições" ou "reconstruções" de eventos históricos, com tribunais populares e outras peças com um forte substrato sociológico, sempre em parceria ao Institut of Political Murder (IPM), criado por Rau em Berlim, em 2007, que se destina a estudar de que forma as violências políticas engendram tragédias. Em Orestes em Mossul, ele coloca em cena atores importantes da cena contemporânea do Norte europeu ao lado de atores iraquianos e personagens encontrados durante a passagem pelo país.

Risto Kübar encarna um Orestes gay, um herói trágico que mistura, a exemplo dos outros personagens-atores de Rau, sua vida pessoal à reinvenção da cena clássica. Ao lado do iraquiano Duraid Abbas Ghaieb (“Pílades”) ele forma o casal que assassinará a rainha Clitemnestra (Elsie de Brauw), uma vingança ao assassinato de seu pai, o rei-patriarca Agamemnon, por sua vez uma vingança ao sacrifício de Ifigênia. O ciclo interminável de vinganças é discutido ao fim do espetáculo, em Mossul, através de um dispositivo tipicamente Rauniano, que reúne imagens previamente filmadas no Iraque a imagens filmadas em tempo real no teatro: é afinal possível perdoar nossos assassinos, sejam eles do Estado Islâmico ou vindos de uma potência ocidental? Segundo Ésquilo, um dos três grandes autores trágicos ao lado de Sófocles e Eurípides, a resposta talvez seja sim. O autor da antiguidade clássica é conhecido por subverter o inexorável trágico, e de devolver ao Homem a responsabilidade sobre suas escolhas.

Milo Rau RFI/Márcia Bechara

Rau conta que os ensaios e workshops em Mossul, antiga Nínive, cidade bíblica mais velha que Atenas, foram palco também de várias questões que ele reconhece como sendo as mesmas da Oresteia, há mais de 2.500 anos, mas misturadas a uma nova “obsessão pornográfica: a relação entra Europa e o Oriente Médio, entre ‘Grécia’ e ‘Troia’, entre os poderosos e aqueles sem poder”. A pornografia desta relação, sem filtro e sem perspectiva, traz disfarçada o discurso niilista dos “inimigos islâmicos” que se projetam no vazio existencial das redes sociais e dos discursos populistas.

O humanismo de Rau ao recuperar a polivalência discursiva da trilogia trágica, aliada à moldura contemporânea, consegue trazer para a cena essa sensação de coletividade e de reconciliação, da polifonia de discursos. Quando se lê Ésquilo, mais do que a voz dos protagonistas, é o chamado coletivo da civilização que se escuta. Em leitmotiv, tocado desde o palco do NTGent, o tema de "Mad World", música sugerida pela banda iraquiana em Mossul, empresta uma respiração de sonho e esperança ao descalabro da guerra. Rau sobrevoa a tragédia, mas seu traço poético é indiscutível na direção.

“Manifesto de Ghent”

É a primeira vez que Milo Rau trabalha com um texto clássico. A simples transposição de clássicos para a cena contemporânea representam para ele um trabalho de “ornamentação teatral”, algo essencialmente inútil segundo o “Manifesto de Ghent [grafia em inglês]”, documento que ele tornou público em maio de 2018 e que norteia suas diretivas teatrais. Entre os itens do documento constam prerrogativas como nunca utilizar mais do que 20% de um texto clássico em uma adaptação/releitura, sempre trabalhar com atores não-profissionais no elenco e apresentar cada produção em pelo menos três países diferentes. O manifesto radical de Rau pede diversidade, pluralidade e deslocamento.

Em novembro de 2019, Milo Rau voltará ao Brasil para continuar sua pesquisa junto a movimentos sociais como o MST e o MTST, mas também para lançar as bases de seu trabalho sobre o país. Após Bélgica, Iraque e Congo, é hora do suíço jogar âncora no epicentro de um imenso país dividido, e que ainda carrega traumas pós-coloniais, no meio do turbilhão da pólis contemporânea. O espetáculo Orestes em Mossul fica em cartaz no teatro NTGent, na Bélgica, até 7 de maio, quando segue em temporada para a Alemanha. A peça teve pré-estreia em Mossul, no Iraque, em 27 de março deste ano.