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Exposição “Vermelho” em Paris propõe mergulho na arte soviética

Por Adriana Brandão

A exposição “Rouge: art et utopie aux pays des soviets” (Vermelho, arte e utopia no país dos soviéticos), em cartaz no Grand Palais, em Paris, revela as expressões artísticas geradas pelo comunismo, da Revolução de Outubro de 1917 até a morte de Josef Stalin em 1953.

Como deve ser a arte da nova sociedade socialista? Esta questão mobilizou os artistas logo após a Revolução Russa e influenciou a produção artística na União Soviética e do mundo. A mostra “Vermelho” reúne cerca de 400 obras emblemáticas deste período, que pertencem a museus russos ou ao centro Pompidou de Paris. Quadros, cartazes, fotografias, filmes, músicas, peças de teatro e maquetes arquitetônicas, todas as formas de expressão foram colocadas a serviço da criação de uma nova estética, contrária à arte burguesa, e de fácil acesso às classes populares. A arte como linguagem para educar o povo, propondo modelos de como deveria ser o futuro socialista.

A exposição Vermelho conta a história da evolução artística na era soviética e levanta a questão sobre a politização das artes imposta pelo confronto entre inovações plásticas e imposições ideológicas. A mostra é dividida em duas partes. A primeira, logo após a Revolução de Outubro, chamada de produtivismo, é mais plural. Ela é liderada por diferentes grupos artísticos, em consonância com movimentos de vanguarda europeus, como o construtivismo. Um dos líderes desse primeiro momento é o poeta Maïakovski que publica com seus amigos futuristas o “decreto n° 1 pela democratização das artes”.

A exposição atrai muitos jovens. A modernidade da arte soviética impressionou a estudante secundarista Adèle Sudre. “É muito interessante porque eles não tentaram catalogar a arte comunista. Eles tentaram mostrar uma faceta diferente e revelar a modernidade da arte soviética”, disse à RFI.

Realismo socialista

Com a morte de Lênin em 1924 e, principalmente, com o início da era estalinista, em 1929, a ideologia soviética transforma a arte em um instrumento de propaganda a serviço do regime que impõe sua estética oficial. Quem não se adaptava, era expurgado.

O curador da exposição, Nicolas Liucci-Goutnikov, lembra que, com essa transição, dos anos 20 aos anos 30 do século 20, a União Soviética “passa de uma década relativamente pluralista para uma época em que Stalin controla o conjunto do poder e deseja também controlar a produção artística”. Segundo ele, “essa expressão artística vai se transformar em uma espécie de máquina de produzir imagens idealizadas. São modelos ideais de operários cheios de energia, de atletas entusiastas”.

O nome dessa estética oficial é realismo socialista que é, na opinião do curador, “uma ficção". De acordo com ele, esse conceito "é uma palavra de ordem, uma vez que a ideia subjacente é que não é a realidade como ela é que é revelada, mas a realidade como ela deveria ser. É um realismo completamente sonhado”, acredita Nicolas Liucci-Goutnikov.

Pura doutrinação

A segunda parte da exposição foi a que mais marcou o historiador francês Saladin que achou a mostra assustadora: “A exposição mostra todas essas coisas assustadoras que nós, mais velhos, conhecemos. Ela é bem-feita, com obras magníficas e comentários históricos pertinentes. É necessário que as pessoas que não conheceram esse tempo, o conheçam. Ela é feita principalmente para os jovens. A mostra confirma o que sabíamos, que os artistas russos viviam o mesmo movimento que os artistas ocidentais e que eles foram todos liquidados, com a chegada de Stalin, nos anos 30”.

O brasileiro Antonio Maximiliano Trez Filho, que vem todos os anos a Paris e visitou a exposição “Vermelho” vê na arte produzida na era estalinista pura doutrinação: “Eu não gosto do sistema. Ele traduz na arte exatamente o que ele era. Raros são os quadros a óleo em que você vê um sentido de liberdade de expressão. É isso que eu sinto, pura doutrinação.” O advogado, agricultor e administrador de uma cooperativa de crédito de Ribeirão Preto não gostou do que viu, mas acha a mostra válida: “Consegui ver obras que nunca teria acesso. Mostrem tudo isso ao mundo, ao Brasil principalmente, onde estamos passando por um período muito difícil de transição.”

A exposição "Vermelho, arte e utopia no país dos soviéticos” fica em cartaz no Grand Palais, em Paris, até o dia primeiro de julho de 2019.

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