rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
Cultura
rss itunes

Daniel Galera lança na França romance apocalíptico "Meia-noite e vinte"

Por Adriana Brandão

“Meia-noite e vinte” é o terceiro romance de Daniel Galera publicado em francês. O escritor paulista radicado em Porto Alegre é saudado pela crítica francesa como um dos mais talentosos de sua geração. Ele veio à França participar da divulgação do livro e entre um lançamento em Paris e festas literárias em Lyon e Auxerre, encerradas no domingo 26 de maio, concedeu uma entrevista exclusiva à RFI.

Os dois primeiros romances de Daniel Galera traduzidos para o francês: “Mãos de Cavalo” e o premiado “Barba ensopada de Sangue”, foram editados pela prestigiosa Gallimard. Para seu terceiro romance, o escritor decidiu mudar de editora. "Meia-noite e vinte" é publicado pela também célebre editora Albin Michel, com tradução de Régis de Sá Moreira.

Livros de Daniel Galera Carol Menville

Para alguns críticos franceses, a última obra de Galera é um "Romance apocalíptico", ou um "livro de um gênero inclassificável", que navega entre o drama intimista, o relato de vida e reflexões sobre o mundo que se transforma rapidamente. A história, que fala do tempo presente, se passa em Porto Alegre, e conta o reencontro de três jovens no enterro de um amigo, brutalmente assassinado. Os quatro lançaram nos anos 90 um fanzine que fez muito sucesso na internet. No contato com os leitores franceses, Daniel Galera percebe que a trama suscita muito interesse :

"O livro parece suscitar um interesse profundo dos leitores aqui na França porque é uma história bem contemporânea que se passa no Brasil e, acho, que trata de alguns assuntos que são globais, como ideologias apocalípticas, mitos do fim do mundo, mudanças climáticas. Coisas que perpassam o mundo todo. Mas, ao mesmo tempo, o livro retrata tangencialmente questões políticas e sociais do Brasil contemporâneo."

A história acontece em 2014, durante um verão infernal e uma greve de ônibus que paralisa a cidade. Era uma época ainda marcada pelos grandes protestos contra o governo e a realização da Copa do Mundo, “protestos que culminaram com o impeachment da presidente Dilma Rousseff”, lembra Galera.

Romance polifônico

"Meia-noite e vinte" é um livro polifônico, com uma narrativa fragmentada. Cada capítulo, escrito na primeira pessoa, é a voz de um dos três jovens lembrando os momentos de quando se conheceram nos anos 90 e falando de suas desilusões; sonhos e expectativas frustrados de toda uma geração.

“Esse é também um livro sobre a minha geração, que se tornou adulta no final dos anos 90, início do milênio. Muitas expectativas com o futuro que existiam se mostraram impossíveis. Se há um bug do milênio, ele aconteceu no final dos anos 2010, quando ficou evidente que uma certa estabilidade política e econômica começou a desmororar.”

Segundo o autor, a ansiedade é o sentimento do romance, que nasceu com sua necessidade de transformar em ficção “a sensação de agústia, medo de sair de casa pela primeira vez”, imposta pela violência urbana.

Daniel Galera Carol Menville

Livro premonitório?

"Meia-noite e vinte" não é um romance político, mas Daniel Galera fala do Brasil de hoje, desse “ódio da política e de tudo que levou as pessoas a elegerem um presidente de extrema direita que, ao invés de tentar construir soluções dentro da democracia, propõe soluções radicais do passado, que terminam em violência e desigualdade." No entanto, ele descarta ter feito um livro premonitório.

“Ninguém previa em 2015 que o Bolsonaro iria vencer as eleições. Agora eu consigo ver esses sinais, mais eu não tinha consciência deles enquanto escrevia.”

Nesse contexto, Galera afirma que nunca foi tão difícil para ele escrever, mas confessa já pensar em uma continuação para a história de "Meia-noite e vinte".

Mostra na Fundação Cartier de Paris reflete sobre estética e ciência das árvores

Espetáculo audiovisual encena 3 mil anos de Lutécia, o alterego milenar de Paris

Festival de Verão flerta com o ilusionismo e a performance para revelar Paris encantada

Festivais de verão se multiplicam e se tornam "motor de convivialidade" na França

Sidival Fila: frei brasileiro baseado em Roma expõe arte abstrata em Paris e na Bienal de Veneza

Crise de refugiados é tema de espetáculo em festival de marionetes em Paris

Com jurados brasileiros, "Queer Palm" chega na sua 10ª edição em Cannes

Mostra em Paris propõe imersão nas emoções do amor à primeira vista

Apartamento parisiense de Le Corbusier é um marco da arquitetura moderna

Paris acolhe 1ª exposição de esculturas híbridas e sensuais da brasileira Erika Verzutti