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Teatro Avignon Gênero contos

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Homem interpreta Branca de Neve em espetáculo infantil do Festival de Avignon

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Branca de Neve é interpretada porjovem ator, enquanto o Príncipe é vivido por uma atriz 40 anos mais velha. Divulgação

Tudo mudou desde que os irmãos Grimm criaram, no século 19, o famoso conto de fadas, adocicado depois por Walt Disney: Branca de Neve é interpretada por um homem, o Príncipe por uma mulher, a floresta é um amontoado de árvores secas, os rios secaram e os sete anões viraram 101 lenhadores explorados pelos cavaleiros. Essa versão que quebra os arquétipos de um lendário conto inspirado por mitos germânicos foi criada especialmente para o Festival de Avignon, no sul da França.


O espetáculo feito para crianças e adultos foi escrito pela jovem dramaturga francesa Marie Dilasser e dirigido por Michel Raskine, que tem uma longa trajetória no teatro francês. “Branca de Neve, História de um Príncipe” é uma continuação do velho conto. “Branca” e o Príncipe já vivem juntos há vários anos e são bem diferentes do casal idílico imortalizado pela Disney. Eles brigam o tempo todo e a princesa assume claramente uma postura feminista face ao comportamento machista do Príncipe.

Branca de Neve é interpretada pelo jovem suíço Tibor Ockenfels, de 27 anos, e o Príncipe por uma experiente atriz francesa, Marief Guittier, quarenta anos mais velha. “Branca” não para de crescer e o Príncipe não para de envelhecer nessa versão hilária do conto. Além da inversão de gêneros e do contraste físico entre os personagens – que acentuam o distanciamento com a história original – a peça trata de questões que estão no centro das preocupações da atualidade, como as relações dos casais e a destruição do planeta.

Inversão dos arquétipos

Ao invés do espelho – interrogado à exaustão pela madrasta malvada no conto original –, a lua é o elemento mágico com o qual os personagens conversam quando se sentem sós. Os 101 anões, chefiados por um deles, chamado “Lèche-Bottes” (Puxa-Saco, em tradução livre), é uma referência aos 101 Dálmatas da Disney. E para dar um tom ainda mais um picante à peça, Branca de Neve tem um amante que se chama Monsieur Séguin, referência a um personagem de um romance popular do francês Alphonse Daudet, que se passa na região da Provence.

O Príncipe, que no conto original é um personagem bem apagado, nessa versão de Dillasser e Raskine tem um papel preponderante, mas não tem nada a ver com o asséptico rapaz da Disney, do qual não lembramos de uma só palavra que ele proferiu. A atriz Marieff Guittier encarna um príncipe que é a caricatura do machista paranoico. Ele não é mais o “salvador” da princesa. Ao contrário, a mantém trancada no palácio. Para alegria das crianças e dos adultos, é Branca de Neve que o vence no final da história, conquistando a sua independência, mesmo se a peça não termina exatamente com um clássico final feliz.

Para o diretor Michel Raskine, o texto de Marie Dilasser é direto e questiona bem a crueldade dos contos dos irmãos Grimm e a versão romântica da Disney. A autora introduz muitos trocadilhos para se aproximar do vocabulário infantil. Os personagens de Branca de Neve e do Príncipe são interessantes para essa reflexão, pois fazem parte de um “patrimônio cultural patriarcal”, conhecido no mundo inteiro. “Por isso é tão divertido poder desconstruí-los e triturá-los, de certa maneira” – ressalta o diretor, no texto do programa da peça.

Segundo Raskine, o espetáculo inverte os arquétipos para melhor questioná-los. “Toda a história do teatro ocidental é uma revisão incessante dos arquétipos” – pondera ele. Junto com Marief Guittier, ele pretende continuar a trabalhar com a releitura de textos e contos. “Barba Azul, esperança das mulheres” foi o primeiro trabalho do gênero da dupla, em 2001.

O cenário do espetáculo é despojado e original, com fios pendurados que lembram o teatro de marionetes. Os figurinos têm uma inspiração neopunk, com um toque de “Família Addams” (série da televisão americana dos anos 1960 sobre uma engraçada família de feiticeiros e fantasmas, adaptada para o cinema em 1991).

A lua, com os quais os personagens dialogam, é um grande círculo prateado que mexe os olhos e a boca, uma homenagem ao ilusionista e cineasta francês George Meliès, precursor dos efeitos especiais no cinema no início do século 20. O anão “Puxa-saco” – que representa o batalhão de 101 explorados – é uma marionete manipulada pelo terceiro personagem em cena, o andrógino “Souillon” (“Tosco”, numa tradução livre), uma espécie de empregado da família real.

“Não existem príncipes encantados”

Encenada numa capela gótica de Avignon, a peça deixou crianças e adultos perplexos e não provocou muitos risos no público. O texto não é leve, pois ressalta, além do desgaste desse casal-modelo da história original, o perigo do fim do mundo, destruído pelas guerras e pela exploração desordenada do meio ambiente.

Diretor Michel Raskine avalia que o roteiro questiona a crueldade dos contos dos irmãos Grimm e a versão romântica da Disney. Divulgação

Entrevistada pela RFI na saída do espetáculo, a menina Julie de 11 anos, disse que “gostou muito da peça” e principalmente da interpretação do Príncipe “muito forte”. Para ela o fato de ser uma mulher que o interpreta e um homem a Branca de Neve “mistura os papeis, é diferente e muda um pouco a história”. Questionada se ela riu durante o espetáculo, ela respondeu: “Eu achei engraçado, mas eu não ri muito. Eu não rio muito nos espetáculos”, completou.

Em compensação, sua avó que a acompanhava, Roselyne, tem uma opinião bem definida sobre a encenação: “É uma peça excelente para não deixar que as meninas pensem que os príncipes encantados existem. Aliás, as princesas também não”. Ao perguntarmos o que ela achou sobre o fato da princesa ficar trancada no palácio, só fazendo tarefas domésticas, ela respondeu: “Ah, isso acabou! E se os caras não começarem a fazer os trabalhos em casa, nós é que vamos trancá-los! ”.

Acompanhando a pequena Charlotte de 5 anos, que diz timidamente ter achado a peça “engraçada”, Anne, sua mãe, destacou o lado muito sombrio do espetáculo: “Tudo desmorona no final, todos os sonhos que criamos quando éramos crianças caem por terra”, diz ela. “A peça tem um lado negro que me perturbou e que as crianças não entendem.”

Segundo Anne, não é tanto a inversão de gêneros que a incomodou, mas é “uma tensão final quando vemos que tudo desaba: o meio ambiente, o casal...E o que mais me chocou foi a resposta da lua ao Príncipe desnorteado. Ela acaba dizendo para ele que não tem nada a fazer, que ele não é o único nesse caso, num mundo apocalíptico e que não tem nenhuma solução”. Para ela, um final muito triste “para pequenos e grandes”.

A peça “Blanche-Neige, Histoire d’un Prince” fica em cartaz na Chapelle des Pénitents Blancs até o próximo dia 12 de julho, no Festival de Avignon.