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Filme de brasileira concorre a prêmio no Festival de Locarno tocando em feridas abertas da colonização amazônica

Por RFI

Maya Da-Rin realizou alguns documentários e dois curtas metragens filmados no Amazonas, na fronteira com a Colombia e o Peru, em 2006. Durante esse período, a diretora fez amizade com algumas famílias que haviam abandonado seus costumes tradicionais para viver nas cidades de Tabatinga, Letícia e também Bogotá. Em entrevista à RFI, ela conta que foi o contato muito próximo com uma destas famílias que deu origem à ideia de fazer A Febre, película que conta a história de duas gerações, um pai e uma filha que vivem em Manaus. O filme da brasileira concorre ao Leopardo de Ouro no Festival de Locarno de 2019.

Rui Martins, de Locarno, especial para a RFI

RFI - O filme é sobre a conservação da tradição indígena e sobre a integração com a filha do personagem principal, qualificada para fazer medicina. Estamos atualmente no Brasil, onde o governo quer integrar os índios à força e eliminar os que não se integram, como você vê essa situação?

Maya Da-Rin - Esse projeto não é novo, ele vem da época da Ditadura Militar, um projeto integracionista, pelo qual os indígenas deveriam ser assimilados à identidade nacional. Na verdade, havia outros interesses por detrás desse discurso de integração. Era o interesse do agronegócio de abrir as reservas indígenas e também para se explorar os minérios. Existe um interesse econômico muito forte por detrás do discurso de que somos todos iguais e que os índios não se diferem dos outros brasileiros. Mas que brasileiros, os ricos ou os pobres? Porque no momento em que perderem suas terras e não tiverem mais seu território demarcado como reserva indígena, não restará aos indígenas senão passar a ser mão-de-obra, mal paga, muito barata, a serviço de uma elite escravocrata. Isso preocupa porque toca no fim de direitos alcançados com muita luta e incluídos na Constituição de 1988 e agora ameaçados.

RFI - Logo depois da descoberta do Brasil, começou a doutrinação dos indígenas pelos missionários católicos. Atualmente existe um grande empenho pela conversão ao cristinianismo dos indígenas pelos evangélicos. Como vê esse esforço evangélico dentro do plano de Bolsonaro?

MD - No começo do século XX, houve muito esforço missionários dos salesianos católicos na região do Alto Rio Negro, de onde vêm os personagens do filme. Os salesianos foram muito ativos e criaram internatos. As crianças deixavam suas famílias para estudarem nesses internatos. As malocas foram destruídas nos anos 60 e só agora foram reconstruídas. Mas durante muitos anos não existiam mais malocas indígenas no Alto Rio Negro. As família passaram a viver em casas e seus rituais passaram a ser considerados como coisas do demônio. Suas línguas não eram mais faladas, algumas delas acabaram sendo esquecidas, outras se conservaram como o tucano, que é a língua falada no filme. Como o filme é falado em tucano, com legendas em português, isso exigiu um longo trabalho de adaptação e tradução. Os atores ajudaram na criação dos diálogo do filme.

RFI -Você falou nos salesianos mas esqueceu dos evangélicos...

MD - A grande questão é quando a religião se mistura com a política. Respeito a todas as religiões. A gente sabe da importância do apoio dos evangélicos na vitória de Bolsonaro. Mas é importante que a gente possa preservar no Brasil a liberdade religiosa.

RFI - O filme é falado em tucano, um dos idiomas indígenas. Então, será legendado em português?

MD - O filme é falado em tucando e português, os diálogo em tucano serão legendados.

RFI - O filme é sutil mas deixa bem visível a questão do desmatamento da Floresta Amazônica...

MD - São interesses muito fortes. Faz parte da história das Américas. Os interesses econômicos estão sempre na frente, movendo tanto os projetos sociais como os econômicos. Os dados oficiais do desmatamento neste ano são quatro vezes maiores que as dos anos anteriores. A situação se torna preocupante. As reservas indígenas são ainda as preservadas e isso torna as reservas muito importantes, porque elas são o lar onde vivem diferentes povos brasileiros, com suas culturas e seus idiomas. É muito importante que esses povos tenham o direito de viver com suas línguas e culturas, muitas das quais já foram exterminadas. O maior massacre da história foi a colonização das Américas. O número de pessoas que morreu foi maior do que o da população na Europa daquela época. É muito importante preservar os povos que vivem sem ter ainda contato com a sociedade envolente e respeitar que possam ter o livre arbítrio de continuar vivendo na floesta ou fazerum contato se quiserem. É muito importante que os indígenas sejam livres para poder fazer a escolha. Ou fazerem uma universidade como a filha de Justino no filme ou a ter uma relação com a floresta, voltar a viver na floresta ou viver na aldeia, como o irmão de Justino.

RFI - Como vê a situação da Ancine e a ameaça de filtro ou censura prévia para os filmes brasileiros?

MD - Vivemos uma situação preocupante com as declarações de Bolsonaro sobre a Ancine, sobre filmes que não devam mais ser realizados, ou que a Ancine não deva mais permitir a realização de filmes que não vão mais na linha dos bons costumes. Já vivemos isso no Brasil e sabemos do que se trata. Mas não é só a Ancine, há muitas áreas da cultura que estão sendo ameaçadas.

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