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Roman Polanski Bienal de Veneza

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Apesar de polêmica, novo filme de Polanski é exibido em competição em Veneza

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Roman Polanski no festival de cinema de Zurique, em 2017. REUTERS/Arnd Wiegmann

Apesar da polêmica em torno de sua seleção na competição, Roman Polanski estreia nesta sexta-feira (30) no Festival de Veneza seu filme sobre o caso Dreyfus, "J'Accuse", no qual vê um paralelo com sua situação, pois se considera "um perseguido".


O filme do cineasta franco-polonês de 86 anos compete com 21 filmes pelo Leão de Ouro. O diretor de "O Pianista" estará ausente, informou à AFP a assessoria do filme.

O filme trata do caso Dreyfus do ponto de vista do tenente-coronel Georges Picquart, interpretado por Jean Dujardin (ganhador do Oscar por "O Artista"), chefe do serviço de inteligência e figura-chave no desfecho do caso.

Ele divulgou as evidências que permitiram inocentar o capitão Dreyfus, francês de origem alsaciana e de confissão judaica, acusado de traição, pondo fim a esse grande escândalo da Terceira República na França, que durou doze anos (1894-1906).

Acusado de estuprar adolescente em 1977

Roman Polanski, ainda processado pela justiça americana pelo estupro em 1977 de uma adolescente, disse em várias ocasiões que via nesse caso ecos de sua própria história. Palavras que ele reitera no kit de imprensa do filme, divulgado online pelo Festival de Veneza.

"Fazer um filme como esse me ajudou muito. Na história, encontro coisas em que me reconheço, vejo a mesma determinação de negar os fatos e de me condenar por coisas que não fiz", disse em entrevista ao escritor Pascal Bruckner. "A maioria das pessoas que me assedia não me conhece e não sabe nada sobre o caso", acrescenta.

"Bola de neve"

Questionado sobre a "perseguição" que ele sofreu desde o assassinato de sua esposa Sharon Tate, em 1969, o cineasta enfatiza que "é como uma bola de neve". "Cada estação adiciona uma nova camada", acrescenta, com "histórias absurdas contadas por mulheres que nunca vi na minha vida, que me acusam de coisas que supostamente aconteceram há mais de meio século".

Três novas mulheres apresentaram acusações contra ele nos últimos anos. Em 2010, a atriz britânica Charlotte Lewis o acusou de "abusar sexualmente" dela aos 16 anos, em 1983.

Uma segunda mulher a acusou de agressão sexual em 2017, quando ela tinha 16 anos em 1973, e uma terceira apresentou uma queixa em 2017 por estupro, por fatos que datam de 1972, quando ela tinha 15 anos. Acusações "infundadas", segundo o advogado de Polanski.

Críticas de feministas

A presença de "J'Accuse" na disputa pelo Leão de Ouro provocou fortes críticas nas últimas semanas por parte de feministas, incluindo a fundadora do grupo Women and Hollywood, Melissa Silverstein, para quem o sestival "é completamente surdo aos problemas relacionados ao #MeToo".

A própria presidente do júri deste ano, a argentina Lucrecia Martel, afirmou na quarta-feira (28) estar "muito envergonhada" com a seleção do filme, e indicou que "não compareceria" à exibição oficial. Ela então amenizou suas palavras, indicando que "não se opunha" à presença dele na competição e não tinha "preconceitos" sobre o trabalho.

O diretor atrai há vários anos a ira das feministas, que não aceitam que seus filmes continuem sendo exibidos em festivais e que ele continue sendo homenageado.

Na França, feministas protestaram em 2017 contra uma retrospectiva de seus filmes na Cinemateca Francesa, e ele desistiu de presidir a cerimônia de César no mesmo ano. Nos Estados Unidos, Polanski processou a Academia do Oscar, que decidiu exclui-lo da instituição.

Roman Polanski se declarou culpado em 1977 por sexo ilegal com Samantha Geimer, então com 13 anos de idade. Ele fugiu dos Estados Unidos após a mudança na posição do juiz, que provavelmente resultaria em uma sentença mais pesada do que o previsto. Os promotores dos EUA ainda estão tentando trazê-lo ao país para fazê-lo cumprir sua sentença.