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"Triste coincidência": livro de premiado autor francês sobre Amazônia chega às livrarias em plena crise das queimadas

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Patrick Deville, autor do livro Amazonia. Captura de vídeo

“Amazonia”, do renomado escritor-viajante francês Patrick Deville, chegou às livrarias francesas pela editora Seuil neste mês de agosto. “Triste coincidência, ainda mais que os incêndios parecem ser mais graves do que habitualmente. Infelizmente, essa catástrofe do desmatamento não é nova”, lamentou Deville em entrevista à RFI.


“Amazonia” é a etapa sul-americana do projeto literário de Patrick Deville, vencedor do importante prêmio francês Femina em 2012. Há anos ele percorre o mundo escrevendo livros de “romance sem ficção”. Este é o 7° volume da série, que ao todo terá 12 livros.

A última viagem começou em maio de 2018, em Belém, e terminou em agosto do mesmo ano em Galápagos, depois de mais de 5 mil quilômetros percorridos em companhia do filho, Pierre. Pai e filho subiram o Amazonas em um barco batizado pelo autor de “Jangada”, título de um romance de aventuras de Jules Verne na região: “O rio Amazonas corre quase sobre a linha do Equador e eu quis organizar essa viagem em torno desse avanço do leste ao oeste. É o espelho do que fiz para este ciclo há alguns anos, quando escrevi “Equatoria”, que foi a travessia da África de São Tomé e Príncipe a Zanzibar, isto é, do oeste em direção ao leste, na altura da linha do Equador.”

Patrick Deville viaja no espaço, mas também no tempo. Ele dialoga com textos importantes de exploradores e escritores que antes dele descobriram o Brasil e sua magnifica floresta: Blaise Cendrars, Euclides da Cunha, Levi-Strauss, o marechal Rondon, mas também autores contemporâneos como Milton Hatoum ou Bernardo Carvalho. O escritor também volta no tempo para contar suas primeiras viagens ao país, a partir de 2005, e a descoberta da literatura e história brasileiras.

Peripécia de Bolsonaro

Seu relato e citações, revelam, mais uma vez, os laços históricos que unem a França e o Brasil. “Evidentemente, é o contrário desse surpreendente incidente atual, provocado pela personalidade de Bolsonaro. Os laços culturais são muito fortes. Primeiro, a presença da língua. Bernanos publicou seus artigos e livros no Brasil em francês. Tem, por exemplo, o apreço de Cendrars pela poesia modernista brasileira. Isso foi muito forte, é ainda, e supera esse tipo de peripécia de Bolsonaro.”

Deville visitou o país durante a campanha presidencial de 2018 e fez no livro previsões pessimistas: “A eleição de Bolsonaro é a prova de que minhas previsões pessimistas, principalmente em relação à posição dele sobre os índios e a floresta, se confirmaram”.

"Amazonia", livro de Patrick Deville que chegou às livrarias francesas em 14 de agosto de 2019. Reprodução Seuil

Fragilidade

Ao descobrir a floresta amazônica tanto no Brasil quanto nos outros países do subcontinente, o escritor francês descobriu também a fragilidade do bioma. As mudanças climáticas que ameaçam todo o planeta e as queimadas criminosas provocam uma catástrofe ecológica: “Essas queimadas são feitas para destruir a floresta e transformá-la em terras agrícolas. É uma catástrofe”, denuncia Deville. Gostaria que “Amazonia” ajudasse a mobilizar os leitores “pela preservação da beleza e da floresta”.

Sobre os clichês associados à região de paraíso ou inferno verde, o escritor conta que viu ainda lugares “paradisíacos”. No entanto, lembrando expedições dramáticas de exploradores europeus do século 19, ele afirma que “somente os índios são realmente adaptados e podem viver no interior da floresta.”

Darwin

Depois da Amazônia, como anuncia no final do livro, Deville irá agora explorar a Polinésia, na esteira das aventuras e expedições de Herman Meleville e Charles Darwin. O final não é feliz, e traz uma visão um tanto desencantada do estágio atual da humanidade e do planeta: “A combinação da explosão demográfica com a aceleração das mudanças climáticas e a diminuição dos recursos naturais anunciam um futuro que não é muito bonito. Há na Europa, na América Latina e em outras regiões, o aumento do populismo no modelo de Bolsonaro, justamente. Começamos a ver a proibição do ensino do darwinismo, como se fosse uma ideologia e não uma verdade científica. Esse já é o caso na Turquia, onde o ensino do evolucionismo é proibido por Erdogan.”