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"O maior problema da Amazônia é a impunidade”, diz fotógrafo italiano premiado por trabalho na região

Por Elcio Ramalho

O fotógrafo italiano Tommaso Protti foi o vencedor da 10ª edição do Prêmio da Fundação Carmignac de Fotojornalismo com o projeto “Terra Vermelha: vida e morte na Amazônia brasileira”. O anúncio foi feito durante o Festival Visa Pour l’Image, realizado em Perpignan, no sul da França.

Enviado especial a Perpignan

O prêmio anual oferecido pela Fundação Carmignac, que apoia a produção de fotorreportagens de investigação com foco em questões relacionadas à violação de direitos humanos e seus impactos ambientais e geoestratégicos, contemplou o trabalho aprofundado de Tommaso Protti sobre a Amazônia e suas diferentes crises.

"É um projeto que começou há cinco anos e é um retrato da Amazônia moderna. O projeto tenta ilustrar várias situações humanitárias e sociais, que se combinam com as crises ambientais, o desmatamento e as queimadas, a mineração, mas também questões relacionadas com os povos indígenas”, explica Protti.

O fotógrafo afirma ter interesse em mostrar a realidade das capitais, como Manaus e Belém, mas também cidades que estão crescendo de maneira desordenada como Altamira, no Pará.

“Meu trabalho tem foco na grande violência que está se expandindo por toda a região. São violências relacionadas com as questões de conflito agrário, o tráfico de drogas. Um grande objetivo do projeto é mostrar esse contraste e o paradoxo desta região que é extremamente rica em recursos naturais, mas, ao mesmo tempo, extremamente pobre”, explica.

O interesse do fotógrafo italiano pela região amazônica começou em 2014, ano da Copa do Mundo de futebol, quando chegou ao país para cobrir diversos eventos. Uma visita a Altamira para uma reportagem sobre a construção da usina de Belo Monte mudou o foco de seu trabalho.

“Na época, a cidade estava explodindo, em pouco tempo a população triplicou pela migração de trabalhadores que foram construir a hidroelétrica. Era uma cidade muito frágil, que não conseguia receber essa onda de pessoas e por isso a violência cresceu muito, com a prostituição e consumo de drogas e álcool. Descobri uma Amazônia diferente, parecida com as realidades urbanas periféricas das grandes cidades brasileiras do sul”, lembrou na entrevista à RFI.

Cena de violência na periferia de Manaus. © Tommaso Protti pour la Fondation Carmignac

Seu projeto, realizado juntamente com o jornalista britânico Sam Cowie, retrata por meio de fotos e reportagens a complexidade da vasta região. Para Protti, não é possível compreender profundamente a Amazônia sem olhar para a realidade urbana, e sua realidade emblemática com o que acontece na floresta tropical.   

“Comecei a investigar e me questionar sobre o significado da Amazônia hoje. Fala-se e tenta-se refletir muito sobre a preservação e a defesa da natureza. Achei que para compreender a situação seria melhor começar a olhar pelas cidades, que de certa forma, é uma porta de ingresso da modernidade. Mas que, até agora, é só um emblema da destruição da floresta porque são cidades que estão crescendo sem controle. As periferias estão se expandindo, o lixo crescendo e tem muita violência”, explica.   

A conquista do prêmio da Fundação Carmignac, que ofereceu € 50 mil (R$ 226,7 mil) para o projeto, permitiu ao fotógrafo  realizar diversas viagens pela região amazônica a partir de janeiro. No roteiro, investigações sobre tráfico de drogas pelo rio Amazonas, visita a prisões lotadas e a comunidades indígenas e de trabalhadores rurais.

“Com esse prêmio tive mais recursos, consegui viajar bastante de maneira independente, e ver tudo o que me interessava,  para mostrar uma visão diferente da Amazônia e contar as diferentes crises que atingem a região. É um projeto em andamento e ainda e ainda tenho muitas coisas para fazer”, destaca.

Araribóia, Brasil - Um membro da guarda florestal Guajajara em um momento de tristeza diante de uma árvore derrubada por suspeitos de exploração ilegal de madeira. © Tommaso Protti for Fondation Carmignac

Mobilização internacional

Tommaso Protti, que deve fazer ainda outras visitas à região para dar sequência às suas investigações, vê com muita cautela a atual mobilização internacional pela Amazônia, especialmente pelas repercussões negativas devido ao aumento do desmatamento e das queimadas que atingem a floresta tropical. “Os cientistas indicam que a Amazônia está vivendo um ponto de não retorno, uma situação muito complicada e corre o risco de acabar.  Essa sensibilização é importante”, afirma.

No entanto, Tommaso lembra que os fenômenos das queimadas são cíclicos e este ano o tema ganhou destaque pelo ambiente político, uma vez que o governo do presidente Jair Bolsonaro é reconhecidamente crítico em relação a questões ambientais. Isso repercutiu no interesse pelos problemas da região. “O desmatamento ganhou relevância, mas esses fenômenos são cíclicos. O problema de fundo é que tem poucos recursos para combater de maneira adequada contra todas as atividades ilícitas e ilegais”.   

Com a experiência de cinco anos viajando pelos nove estados da Amazônia brasileira e o trabalho de registrar os problemas que assolam a região, Protti estima que o ponto de partida para reverter o cenário de destruição é a luta contra a impunidade.

“O Estado deveria ser mais presente. O grande problema desta região é a impunidade. Este é um problema crônico da sociedade brasileira, mas em uma região como a Amazônia, que é extremamente pobre e imensa, os poucos recursos e a falta do Estado causa obviamente uma proliferação de atividades ilegais e de pessoas que tentam se aproveitar de tudo o que a floresta oferece”.

Como exemplo, o fotógrafo cita sua visita à cidade de Pau D’Arco, no sudeste do Pará. Em 2018, um grupo de trabalhadores rurais que ocupou uma propriedade foi alvo de uma chacina que deixou 10 mortos após uma ação das polícias civil e militar. “Há testemunhas que revelaram nomes dos agentes da polícia. Até hoje ninguém foi sentenciado e nem houve julgamento. Esse é o espelho da realidade, dessa falta de justiça. A impunidade está em todos os cantos, dentro da floresta e nas cidades”, comenta.

Grajaú, Brasil - Uma área desmatada no sul do estado do Maranhão. © Tommaso Protti for Fondation Carmignac

“A atenção midiática sobre a Amazônia é positiva, o importante não é exagerar e sim se informar sobre o que acontece. Não adianta ir lá alguns dias, tirar umas fotos dos incêndios para saber que a floresta está com problemas. O problema é de fundo”, insiste.    

O trabalho de Tommaso Protti sobre a Amazônia vai ser exposto a partir do dia 4 de dezembro na Maison Européenne de la Photographie, em Paris, e também em frente à prefeitura da capital francesa.

 

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