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Revista francesa Cahiers du Cinéma está preocupada com ameaças de Bolsonaro ao cinema brasileiro

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Capa da revista Cahiers du Cinéma de setembro de 2019, ilustrada com uma foto do filme Bacurau e a chamada "O Brasil de Bolsonaro". Divulgação

Aproveitando o lançamento de “Bacurau” na França, a conceituada revista “Cahiers du Cinéma”, uma das mais importantes do mundo, publica em sua edição de setembro um dossiê especial sobre a situação da cinematografia brasileira. A capa é ilustrada com uma fotografia do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles e traz como manchete “O Brasil de Bolsonaro”.


O número de setembro da Cahiers de Cinéma é sempre especial, com os destaques de lançamentos da chamada “rentrée”, ou a volta às aulas depois das longas férias de verão na França. A escolha do Brasil como tema ganha uma importância emblemática.

O dossiê sobre o cinema brasileiro, de quase 20 páginas, traz também entrevistas exclusivas com cineastas expressivos da atualidade: Fellipe Barbosa (“Casa Grande”, “Gabriel e a Montanha” e “Domingo”), Eryk Rocha (“Cinema Novo”), Marco Dutra (“Trabalhar Cansa” e “As boas maneiras”), Camila Freitas (“Chão”) e Guto Parente (“Inferninho”). Além disso, a revista destaca a estreia na França de “Bacurau”, no próximo dia 25 de setembro. O longa, vencedor do prêmio do Júri no último Festival de Cannes, recebe uma crítica elogiosa do Cahiers pela qualidade de sua direção e temática. O texto é acompanhado por uma longa entrevista dos diretores Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Em seu editorial, o chefe de redação da revista, Stéphane Delorme, diz que “Bacurau, uma fábula explosiva contra as forças de destruição de massa, ilumina os lançamentos deste mês de setembro na França. Neste momento em que o cinema brasileiro é um dos mais férteis, ele está ameaçado pela ofensiva reacionária e regressiva de Bolsonaro”, escreve Delorme. Ele anuncia que a reportagem especial da revista “revela tanto a preocupação, quanto a energia dos cineastas para resistir”.

“O cinema brasileiro na era Bolsonaro”

Capa da revista Cahiers du Cinéma de setembro de 2019, ilustrada com uma foto do filme Bacurau e a chamada "O Brasil de Bolsonaro". Divulgação

O dossiê “o cinema brasileiro na era Bolsonaro” é assinado pelo crítico do Cahiers Ariel Schweitzer. Há anos ele acompanha a presença crescente de filmes brasileiros em festivais internacionais e fez, no último mês de junho, uma viagem ao país para ver de perto a situação. Segundo Schweitzer, desde a época gloriosa do Cinema Novo, a produção brasileira não era tão forte. Ela vive seu “apogeu”, como confirma os dois prêmios obtidos no Festival de Cannes este ano: o prêmio do Júri para “Bacurau” e o prêmio “Um certo Olhar” para “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Ainouz. Com a criação da Ancine, em 2001, e as políticas culturais implementadas no governo Lula, o cinema brasileiro se descentralizou permitindo a emergência de outras culturas, de minorias étnicas e sexuais, de jovens cineastas e uma diversificação da estética e da produção.

“Nossa impressão é que o cinema brasileiro está atualmente em um momento decisivo. De um lado recolhe os frutos de investimentos extraordinários dos governos precedentes; de outro lado, está ameaçado pelo novo governo que vê o cinema como um inimigo interno e que ameaça cortar todas as conquistas dos últimos 15 anos”, afirma Ariel Schweitzer em entrevista à RFI.

Os filmes analisados pelo crítico do Cahiers foram realizados e produzidos antes da chegada de Bolsonaro ao poder, mas na sua opinião muitos deles “são visionários e antecipam de alguma maneira a situação política atual, como “Bacurau” ou “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro”.

Crise da Ancine

Em junho, quando foi ao Brasil, as ameaças do governo contra a Ancine (Agência Nacional do Cinema) já eram alarmantes, mas os cineastas entrevistados por Schweitzer ainda estavam otimistas. De lá para cá, a situação piorou muito.

Em 18 de julho, o presidente Jair Bolsonaro criticou o financiamento público de filmes como Bruna Surfistinha (2011), que ele classificou de “pornografia”. Na sequência, modificou a composição do Conselho Superior do Cinema (CSC), tornando minoritária a participação de profissionais do setor e de representantes da sociedade civil; anunciou a transferência da sede da Ancine do Rio de Janeiro para Brasília e a criação de um “filtro” para avaliar os filmes a serem contemplados com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), entre outras ameaças. De concreto, diversas produções estão paradas e filmes nacionais previstos para 2020 comprometidos devido ao atraso na liberação de verbas do FSA.

“O cinema brasileiro está na linha de frente dessa campanha de Bolsonaro contra os intelectuais e artistas por causa de sua visibilidade internacional. Ele se tonou uma espécie de vitrine do Brasil devido a seu sucesso no exterior e em festivais internacionais. Temos a impressão que o governo desenvolveu uma espécie de obsessão com o cinema brasileiro. Como se este Brasil de minorias, que acredita nos direitos humanos, fosse uma ameaça para este regime”, ressalta o crítico do Cahiers du Cinema.

Ele lembra que o cinema é uma indústria e que, ao contrário de outros setores culturais, precisa muito mais do dinheiro público para continuar a se desenvolver. Apesar de se dizer um otimista nato, Ariel Schweitzer, concede, com uma certa tristeza, que este seja o “canto do cisne” da produção nacional e espera que os cineastas e produtores se unam e reajam à altura.

Recepção

A recepção do número de setembro da revista no Brasil foi excelente. Além de vários artigos em jornais e revistas nacionais falando da importância do dossiê, mais de 200 exemplares da revista, em francês, foram vendidos no Brasil. “Temos a impressão que os cinéfilos brasileiros viram isso como um gesto da França e da Europa neste combate que começa para garantir a independência do cinema brasileiro em relação ao poder atual. Vamos continuar a defender o cinema brasileiro no Cahiers”, promete.