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Ana Karenina inspira peça em três línguas assinada pelo português Tiago Rodrigues

Por Patricia Moribe

“The Way She Dies”. “Como ela morre”. É a peça que o dramaturgo português Tiago Rodrigues, 42 anos, apresenta no Festival de Outono, em Paris, durante quase um mês. Os ingressos se esgotaram rapidamente para todas as apresentações antes mesmo da estreia.

No palco, dois casais, um de portugueses, e outro, de belgas. O fio condutor de idas e vindas no tempo é o livro “Ana Karenina”, de Leon Tostói. Não se trata de uma releitura do romance de mais de mil páginas. É uma desculpa, uma inspiração, para Rodrigues construir uma história própria, de amor, paixão, desejo, separação.

É uma trama de línguas: a peça se passa em português, em neerlandês e em francês. Na década de 1970, em Lisboa, o casal é formado pelos atores Isabel Abreu e Pedro Gil. Ela está apaixonada por um outro homem, um belga, e tenta aprender francês para se comunicar com o amado. O método escolhido é um volume de “Ana Karenina”, em francês.

Quase 50 anos depois, um outro casal, em Antuérpia, se separa. O homem tenta racionalizar a ruptura, tendo nas mãos a velha edição de “Ana Karenina”, em francês, herdado da mãe portuguesa. Os atores são Jolente De Keersmaeker, Frank Vercruyssen, do grupo belga tg STAN.

Tiago Rodrigues explica o título da peça, “Como ela morre”. “Quando Gabriel García Márquez diz, no início de ‘Crônica de uma morte anunciada’, que Santiago Nasar vai morrer às 7h30 da manhã, passamos o livro todo à espera que ele não morra, e quando ele vai abrir a porta daquela cozinha nas últimas páginas, nós gritamos, ‘Não abra a porta! Não abra a porta!’”, relata Rodrigues.

“Sabemos que ele vai morrer. Mas essa implicação do detalhe, como é que nós, pessoal ou coletivamente, num determinado tempo, num determinado país, lemos aquela história. O mais importante, como é também o caso em 'The Way She Dies', não é se Ana Karenina vai se salvar, mas a questão é como podemos usar Tolstói e perceber como ela morre para falarmos do nosso tempo. Acho que é por isso que voltamos aos textos clássicos, às grandes histórias, aos mitos”, reflete o autor, que já revisitou os gregos, Shakespeare e Flaubert, entre outros.

Um dos grandes nomes do teatro atual, Tiago Rodrigues é diretor artístico do renomado Teatro Nacional Dona Maria II, de Lisboa. O palco é um mundo para ele, literalmente. Além da longeva colaboração com o tg STAN, ele cria e interpreta sem parar, em parcerias internacionais. Nesta edição do Festival de Outono, ele também é coautor do espetáculo “Please Please Please”, junto com a performática espanhola La Ribot e a coreógrafa francesa Mathilde Monnier.

Apreensão com o Brasil

Ele também acompanha o drama cultural do Brasil com apreensão. “Tenho relações muito fortes com vários artistas brasileiros com quem já trabalhei, já me apresentei várias vezes no Brasil”, diz o artista.

“Vejo com muita preocupação a situação no Brasil sob a administração Bolsonaro. Ao mesmo tempo, é imparável a diversidade, a força e a coragem artística brasileira, não só do teatro”, acrescenta. Ele diz que é preocupante a forma como os editais estão sendo modificados diante da pressão política sobre as instituições culturais, além do sério risco de surgir uma censura oficial.  

Em março de 2020, Tiago Rodrigues participa do MITsp, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, onde ele vai apresentar as criações “Sopro” e “By Heart”.

“The Way She Dies” fica em cartaz no Théâtre de la Bastille, em Paris, até 6 de outubro.

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