rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
  • Tunísia : Boca de urna aponta vitória do professor Kais Saied

Bienal de Lyon

Publicado em • Modificado em

Bactérias e produtos químicos "contaminam" obras de arte na 15ª Bienal de Lyon

media
A 15° Bienal de Arte Contemporânea de Lyon pode ser vista até 5 de janeiro de 2020. Foto: Obra de PamelaRosenkranz PamelaRosenkranz

Uma sensação de apocalipse domina a 15ª Bienal de Arte Contemporânea de Lyon, na França. A partir de experimentos químicos e biotecnológicos, os artistas abordam nessa edição a decomposição e transformação da matéria. O evento utiliza pela primeira vez o imenso galpão de uma velha fábrica de máquinas de lavar como principal local de exposição.


Quando o visitante da Bienal de Lyon inicia seu trajeto pelos 29 mil metros quadrados da velha fábrica Fagor, nos arredores de Lyon, ele se pergunta se uma bomba atômica explodiu no local, apagando todos os vestígios humanos existentes.

Uma máquina de lavar “vestida” de seda rosa - uma homenagem à criadora da célebre marca de lingeries francesa Chantal Thomass - é o único toque de humor dessa viagem pelas obras de cerca de 50 artistas contemporâneos, que partem dos rastros do apogeu industrial do local para abordar em suas instalações um futuro incerto, dominado pela urgência ecológica e pela estranha relação entre o mundo dos seres vivos e o universo das bactérias e da biotecnologia.

Máquina de lavar “vestida” de seda rosa é homenagem à Chantal Thomass M.E. Alencar/ RFI

Os curadores da 15ª Bienal de Lyon fizeram questão de deixar a velha fábrica Fagor, desativada em 2015, em seu estado natural, com as marcas dos estragos feitos pelo tempo: o chão manchado por substâncias químicas, as paredes cobertas de grafites e colunas metálicas enferrujadas. Outra novidade dessa edição é que quase todos os artistas construíram suas instalações no próprio local.

A fábrica Fagor Blaise Adilon/Heymann Renoult

“Matérias zumbis”

Foi nesse ambiente que muitos artistas se inspiraram para conceber obras que causam estranheza e desconforto. É o caso da holandesa Isabelle Andersen, que a partir de teorias apocalípticas investiga a evolução da nossa civilização e as novas formas de vida que podem aparecer.

Ela realiza um conjunto de esculturas que vão se decompor e se transformar durante os quatro meses da bienal. São “matérias zumbis”, como ela as denomina, que se comportam como organismos infectados por um estranho vírus. Rodeadas de tubos que injetam água e outras substâncias, suas esculturas transpiram, se decompõem e se metabolizam. “Formas de vida sintéticas que constituem um ecossistema inquietante, sobre os quais nós não temos nenhum controle”, explica a artista.

Na mesma linha, o marroquino Khalil El Ghrib, fascinado pelo processo de transformação das matérias, injeta larvas de insetos em seus objetos efêmeros que se decompõem, e são batizados por ele de “carinhos do mundo”.

A sul-africana Bianca Bondi - também considerada uma das "artistas alquimistas" dessa mostra - utilizou um espaço fechado da velha fábrica Fagor e construiu uma cozinha familiar tradicional com fogão, pia, armários e utensílios totalmente cobertos por uma fina camada de sal. Dentro das panelas, xícaras e jarras espalhadas por essa cozinha, ela colocou um líquido colorido cujo aspecto vai se modificando durante a exposição. Com essa instalação, a artista pretende abordar a transformação dos ecossistemas estimulados por interferências químicas.