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Feira de Frankfurt: “Brasil é o país das impossibilidades”, diz Luiz Ruffato

Por Adriana Brandão

Luiz Ruffato é o escritor brasileiro de maior renome que participa da Feira do Livro de Frankfurt neste ano. Ele foi convidado pela organização do evento literário alemão e ganhou lugar de destaque na programação. O autor mineiro falou em várias mesas sobre sua literatura e sobre o momento político atual brasileiro. Pegando emprestado o título do livro que ele está lançando agora na Alemanha, Ruffato diz que o Brasil é o país das impossibilidades.

Esta é a primeira vez que Luiz Ruffato volta a Frankfurt desde a sua participação e discurso polêmico em 2013. Há seis anos, o Brasil era o convidado de honra da Feira do Livro alemã, que é o principal evento literário do mundo. Na época, o país era festejado como potência emergente, que diminuíra suas desigualdades, e tinha uma imagem internacional positiva. Ruffato fez o discurso de abertura da Feira em 2013 com um conteúdo que destoou ao criticar a violência estrutural da formação da sociedade brasileira.

Neste ano, ele falou em várias mesas redondas, junto com autores de outros países latino-americanos, turcos, com títulos sugestivos como “os vilões do mundo” ou “populismo versus democracia: o que está acontecendo na América Latina,”.

Em entrevista à RFI, Luiz Ruffato afirma que em 2013 havia esperança de que a situação econômia, política e social no Brasil seria resolvida e que hoje, não há mais essa esperança:

“Em 2013, muita gente não compreendeu meu discurso por que acreditou que eu estava falando de governos, o que é uma bobagem. O problema estrutural do Brasil é um problema de fundação. A questão do racismo, do sexismo, do machismo, do classicismo, não são inerentes a um ou outro governo. São inerente à sociedade brasileira. Durante os governo democráticos, e não só o governo Lula, nós tivemos grandes avanços em relação à questões de costumes que fizeram com que tivéssemos esperanças de que algumas destas questões estruturais estivessem começando a ser, pelo menos, questionadas. No entanto com a eleição do Bolsonaro, estas questões voltaram à estaca zero, ou pior, voltaram antes do início do período democrático. O que é uma pena! Os retrocessos são muito rápidos e muito difíceis de você recuperar depois.”

Laboratório da extrema direita

Ruffato está na Alemanha há um mês divulgando a publicação no país do quarto volume de sua pentalogia “O inferno provisório” e encerra pela Feira de Frankfurt esse giro. Ele percebe nesta viagem internacional que o “mundo inteiro está estarrecido com as coisas que estão acontecendo no Brasil. Os alemães estão preocupados, particularmente, com a questão do meio ambiente, com o nível de violência urbana, a crueldade e a violência da polícia e as estupidezes que não só o Bolsonaro, mas o ministros dele dizem a respeito de tudo.”

O escritor, que em maio deste ano esteve também na Alemanha para dar uma palestra sobre “o que aconteceu no Brasil para que, de um governo social-democrata de esquerda, tenha caído no colo de um governo de extrema direita.” Ruffato pensa que o “Brasil serve um pouco de laboratório do que pode vir a acontecer em outros países”.

“A eleição do Bolsonaro é um conjunto muito complexo de coisas que não dá para simplificar. Claro que ele é um fenômeno brasileiro, mas ele acontece em um contexto internacional de crescimento da extrema direita que cresce na Europa, na Índia, nos Estados Unidos, parece que é um espírito do tempo infelizmente de intolerância e de extremismos. Temos o fundamentalismo muçulmano e temos agora o fundamentalismo cristão no Brasil.”

“O livro das impossibilidades”

Luiz Ruffato divulga agora na Alemanha a tradução de “O livro das impossibilidades”, mas uma livro antigo publicado inicialmente em 2009, volta a fazer sucesso junto ao público alemão: o romance “Estive em Lisboa e lembrei de você”, sobre a migração de brasileiros para Portugal.

“Isso é muito curioso. Eu as vezes me sinto um escritor anacrônico. Em 2007 quando publiquei “De mim já nem se lembra”, que trata lateralmente sobre a questão ditadura, muita gente falou comigo que o assunto já não tinha mais importância, já era ultrapassado. Em 2009, publiquei “Estive em Lisboa” sobre os brasileiros que saem do Brasil por absoluta falta de perspectiva econômica e vão viver como mão de obra barata fora do Brasil, de novo me disseram você é anacrônico porque neste momento algumas pessoas estão inclusive voltando para o Brasil. Curiosamente e infelizmente, esses dois assuntos, ditadura e migração de brasileiros para o exterior, estão na pauta do dia. “

Ruffato encerra a entrevista lembrando que “O livro das impossibilidades” traduzido agora para o alemão, foi lançado no Brasil em 2008, sob o governo Lula. “O título deste livro é, talvez, o que eu acho hoje do Brasil. O Brasil é o país[n1] das impossibilidades. A literatura tem as vezes essa capacidade de falar sobre as coisas contemporâneas mesmo que ela não esteja falando sobre coisas contemporâneas.”

O último romance do escritor “O verão tardio”, que chegou às livrarias brasileiras no primeiro semestre de 2019, também está sendo lido como uma metáfora do governo Bolsonaro, apesar de ter sido escrito entre 2016 e 2018. “A literatura tem um pouco esta questão da intuição. O final de ‘O verão tardio’ é um beco sem saída, como nós estamos vivendo hoje. Não vejo luz no fim do túnel”, conclui.

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