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Custo alto leva design brasileiro a ser fabricado na França

Por Gabriel Brust

Depois de passar quase meio século na obscuridade, uma peça de design brasileira está sendo fabricada em escala industrial na França. A cadeira Paulistana, desenhada pelo consagrado arquiteto Paulo Mendes da Rocha nos anos 50, hoje pode ser encontrada no mercado europeu a um preço competitivo, pelas mãos do empresário francês Matthieu Halbronn.

 

O que seria uma história de sucesso do design e do empreendedorismo esconde, na verdade, o fracasso da política industrial brasileira e um monumento ao famigerado Custo Brasil. Halbronn, que vive em São Paulo e descobriu a cadeira no inicio dos anos 2000, tentou fabricá-la no país, mas desistiu depois de dois anos e cerca de 400 unidades produzidas para o mercado interno.

Foi quando começou a receber os primeiros pedidos de fora do Brasil que a empresa percebeu que os custos de produção tornavam o produto pouco competitivo e o preço pretendido, de 1500 dólares por cadeira, não teria como ser atingido.

A lista de dificuldades encontradas e que levou Halbronn a transferir a produção para a França é longa. A começar pelos fornecedores locais do aço e do couro, os dois principais elementos da peça. Ele conta as vantagens de utilizar peças da França: "Neste mercado, de fato foi a metade do preço para produzir. No final das contas, comprar couro em um cortume do centro da França que trabalha num nivel de excelência e mandar fabricar em uma tapeçaria para avião, o resultado foi que até a capa de couro feita à mao, de forma 100% tradicional, acabava sendo mais barata produzida na França."

Projetada para os salões do Clube Athletico paulistano, a cadeira se caracteriza por não possuir nenhum lado oculto, o que exige um acabamento perfeito em toda extenção da estrutura de aço e de couro. No caso do aço, os fabricantes não conseguiram encontrar um fornecedor brasileiro que vendesse porções menores do que 70 toneladas. A logística e a mão de obra despreparada, dois tradicionais gargalos que compõe o Custo Brasil, também aumentavam os custos. Os frequentes problemas no acabamento das peças fornecidas, segundo Halbronn, obrigaram a empresa a gastar uma soma mais alta do que a normal em controle de qualidade. A cereja do bolo foi a política econômica de valorização do real e a inflação, que aumentou os custos em 50% em dois anos. O resultado foi que transferência para Europa tornou o produto mais competitivo. 40% da produção hoje é exportada para os Estados Unidos, 35% para a Europa e, ironicamente, 10% para o Brasil.

O caso da cadeira paulistana ilustra o ambiente pouco propício ao desenvolvimento de certos setores econômicos no Brasil. A rede de lojas de roupa Zara também viu o seu modelo de negócio, que faz sucesso no mundo todo, passar por dificuldades quando chegou ao pais. O professor francês Pierre Salama, que acaba de lançar o livro As Economias Emergentes Latino-Americanas, afirma que a política econômica brasileira da ultima década torna o pais pouco competitivo. “O aumento da produtividade do trabalho é muito fraco no Brasil. Houve muito pouco aumento na produtividade, houve aumento de salários e uma valorização da moeda. Ou seja, há todas as condições para que se desenvolva a desindustrialização. E isso acontece já há uma década.”

A importância da indústria na economia brasileira caiu de 25% do PIB, em 1985, para menos de 15%, em 2011. Analistas prevêem para 2014 uma desvalorização do real, o que ajudaria a reverter o processo desindustrialização. Mas outros fatores, como investimento em pesquisa, é que farão a diferença, segundo Salama: "A valor investido em pesquisa no Brasil é ao redor de 1% do PIB, enquanto na França é de 2,5. O Brasil acumula o atraso. E eu acredito que a razão principal é também o sistema politico brasileiro."

Ouça as entrevistas clicando no botão no alto da página.

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