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Carne bovina não ficará de fora de acordo entre Mercosul e UE

Por João Alencar

A embaixada brasileira, em Paris, organizou, na última segunda-feira, um debate sobre o tratado de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Negociadores sul-americanos, economistas e empresários franceses conversaram sobre as principais medidas, dificuldades e consequências do possível tratado. Segundo uma fonte ligada às negociações, não haverá acordo sem a inclusão da carne bovina sul-americana.

Durante quase duas horas de discussão, o clima era de otimismo. Apesar da onda de protecionismo vivida na Europa com o Brexit - a saída do Reino Unido da União Europeia - e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, o embaixador e negociador chefe do governo brasileiro Ronaldo Costa Filho acredita que as discussões possam, enfim, chegar a um consenso entre os dois blocos.

“Há 15 anos que eu estou envolvido nas negociações e eu nunca percebi um clima tão positivo e um empenho tão decidido dos dois lados para chegar a um resultado satisfatório”, disse.

No debate, o embaixador explicou que o Brasil e outros países do Mercosul adotaram, durante vários anos, um modelo de substituição das importações, com elevada proteção tarifária. Tal modelo privilegiava o mercado interno e regional. Porém, hoje, segundo o embaixador, esse modelo estaria esgotado e por isso, a necessidade de buscar outros mercados, com um acordo de livre-comércio.

“O Brasil só tem a ganhar com este acordo. Vai ter desafio, sim. O setor industrial vai sofrer concorrência muito acirrada da produção europeia que é mais desenvolvida, mas isso é um instrumento que favorece o aumento da competitividade, de investimento das indústrias no Brasil”.

Um dos pontos mais sensíveis das discussões é o setor agrícola. Os pecuaristas europeus temem que, em decorrência do futuro acerto comercial, a carne brasileira e uruguaia entre no mercado europeu com preços muito mais baixos.

Em maio do ano passado, a “Associação Francesa Interprofissional de Pecuária e Carnes” havia comemorado a informação de que a Comissão Europeia teria retirado a carne bovina das negociações do acordo com o Mercosul.

Porém, uma fonte ligada às negociações garantiu que “não haverá acordo sem a inclusão da carne bovina sul-americana”. Já o embaixador brasileiro Ronaldo Costa Filho defendeu que os dois blocos tendem a ganhar com o tratado: “Não é um jogo de um lado só. O setor agrícola europeu também tem a ganhar nesse acordo. Há produtos processados de alta qualidade, reconhecidos mundialmente que tem mercado no Brasil e no Mercosul, como queijos, vinhos, massas, por exemplo, que certamente se beneficiarão da redução de tarifas e de melhores vendas nos países do Mercosul”.

Contexto desfavorável

Para o economista francês Nicolas Bouzou, que participou dos debates na embaixada brasileira, o contexto político europeu não é dos mais favoráveis. Por isso, é necessário acelerar as negociações. “É preciso ter pressa para assinar esse tipo de acordo, porque nós temos hoje uma opinião pública, sobretudo nos países desenvolvidos, cada vez mais hostil à mundialização e ao livre-comércio. Além disso, é necessário fazer um trabalho pedagógico para explicar à população o porquê desses tratados. Explicar que desde a Segunda Guerra mundial, foram as relações bilaterais e a cooperação internacional que permitiram que nós vivêssemos em um mundo mais próspero. Os problemas que existem hoje nos países desenvolvidos, inclusive aqui na França, não são ligados a esses acordos. Foram e são causados por outros fatores internos”, afirmou.

O tratado de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia começou a ser debatido há 22 anos, em 1995, na Espanha. Porém, por questões políticas e conjunturas econômicas, as discussões ficaram paralisadas durante vários anos. O diálogo só foi retomado em 2010, em nova cúpula Mercosul – UE.

Quatro anos depois, em Caracas, na Venezuela, o bloco sul-americano apresentou suas ofertas.
Foi, então, preciso esperar mais quase dois anos para que a União Europeia finalizasse o seu documento a ser colocado na mesa de negociação.

As trocas de ofertas aconteceram, finalmente, em maio do ano passado, quando cada lado entregou um documento com propostas de acesso ao mercado de bens de consumo, de serviço e de investimentos.

A próxima reunião do comité de negociação entre os dois blocos será em Buenos Aires, no próximo mês de março.

 

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