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Aliança do Pacífico começa a ter mais peso do que Mercosul

Por Alfredo Valladão

Na América Latina, a brecha entre o Atlântico e o Pacífico vai se alargando, irremediavelmente. Do lado oriental, um Mercosul paralisado em volta de um Brasil que afundou num lamaçal de crises – econômica, política e moral. E uma Argentina tentando desesperadamente sair do fundo do poço das políticas irresponsáveis do casal Kirchner.

Do lado ocidental, os países membros da Aliança do Pacífico, sem alarde e proclamações retumbantes, vão avançando na integração, e se portando bastante bem, obrigado.Na recente reunião em Cali, essa aliança entre o México, Colômbia, Peru e Chile pôde até anunciar a incorporação de quatro novos membros associados, todos fora da região: Canada, Austrália, Nova Zelândia e Singapura. A aposta é de aumentar a cooperação e os intercâmbios com a Ásia-Pacífico e a América do Norte – se os arrotos protecionistas de Donald Trump não atrapalharem.

A diferença com os estados ribeirinhos do Atlântico Sul é que o modelo da Aliança é pragmático – mais cooperação do que integração – com pequenas conquistas passo a passo porém substantivas. Nada de retóricas utópicas. Desde o início, os países membros estão focados nos resultados econômicos práticos e não em objetivos políticos grandiosos.

Com 35% do PIB latino-americano e 225 milhões de habitantes, o grupo já tem peso suficiente para tentar aproveitar as oportunidades abertas pela nova geoeconomia mundial. O presidente do Peru, explicou que para crescer a região terá que “mudar algumas coisas”. E a primeira é sem dúvida o enfoque. A Aliança do Pacífico, desde de sua fundação em 2011, decidiu abandonar as políticas nacionais protecionistas e apostar na abertura de mercados mais ampla possível. Livre comércio de bens e serviços, empreendedorismo e inovação são as palavras de ordem.

Ideia é sair da dependência extrema

A ideia é sair rapidamente da dependência extrema das exportações de matérias primas, encontrando nichos lucrativos dentro das grandes cadeias industriais globais, encabeçadas por empresas americanas, europeias, chinesas ou japonesas. O México já conseguiu montar um pesado parque industrial ultramoderno nos ramos automobilístico, eletrônico, têxtil ou da comunicação, graças à participação estreita nas cadeias de valor transnacionais.

Para os outros membros da aliança, o desafio é bem maior. Todos ainda vivem da produção de minérios. Mas todos sabem que o futuro está nas indústrias de nicho e sobretudo nos serviços. A questão é como utilizar as próprias vantagens naturais para inventar um upgrade dentro da nova economia industrial turbinada pela uso da informática e das redes de comunicação digital. O ministro chileno da economia mostrou o caminho quando declarou que “não queria mais vender minério, queria vender mineração”.

O objetivo é desenvolver a produção e a exportação de bens e serviços de ponta para a exploração das minas de maneira sustentável e contribuindo na luta contra a mudança climática. Em Santiago já se fala de “cobre verde”, sem emissões de CO2. Aliás, a Austrália – novo membro da Aliança do Pacífico e grande exportador de minério – já está ganhando mais com a venda desses bens e serviços para a mineração do que com as exportações de minério bruto.

Verdadeira revolução

Só que essa verdadeira revolução na maneira de encarar o futuro produtivo não vai acontecer sem uma boa dose de reformas internas. Hoje, já é bem mais fácil investir e abrir um negócio nos países da Aliança do que nos do Mercosul. Apesar das velhas resistências, a burocracia protecionista está sendo eliminada pouco a pouco, a livre circulação de produtos, serviços e pessoas aumentou consideravelmente, e uma cultura da inovação está sendo encampada pelos empresários e os sistemas de educação.

Tudo isso num ambiente político complicado mas relativamente pacificado e previsível – condição maior para atrair capitais estrangeiros e nacionais. Claro, muita coisa pode dar errado e a variável Trump não é das menores. Mas enquanto essa América Latina aberta ruma confiante em direção do Norte e da Ásia, a América do Sul atlântica continua chafurdando nos seus velhos dilemas. Olhando para o umbigo e perdendo tempo e espaço. Perdida no lado errado dessa nova linha de Tordesilhas.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI

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