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Em Davos, Temer vende imagem frágil de Brasil em recuperação

Por Lúcia Müzell

O Brasil participa do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, com a maior comitiva presente no evento nos últimos quatro anos. A delegação, encabeçada pelo presidente Michel Temer e a cúpula econômica, tenta vender a imagem de um país em sólida recuperação – apesar das profundas incertezas políticas e das falhas em áreas valorizadas cada vez mais pelo mundo empresarial, como a preocupação ambiental.

Analistas ouvidos pela RFI ressaltam que o fórum é a ocasião ideal para Temer apresentar os resultados do seu governo na área econômica. Davos é o encontro que reúne líderes políticos mundiais ao lado dos maiores banqueiros, empresários e investidores do planeta.

“Por mais que você goste ou não do presidente Temer e do processo de impeachment, o fato é que o Brasil saiu de uma situação calamitosa, do ponto de vista econômico, para uma conjuntura de inflação em baixa. Estamos caminhando para as menores taxas de juros da história e a retomada econômica está em curso – o que não é necessariamente um mérito brasileiro, já que, em 2018, todo o mundo está crescendo, tanto os emergentes quanto as economias mais maduras”, comenta Marcos Troyjo, diretor do BRICLab, da Universidade de Columbia. “O investimento estrangeiro continua bastante forte no Brasil e tende a permanecer em 2018, com todo o pacote de concessões e privatizações que vão ao encontro dos interesses dos investidores.”

Avanços limitados

O ex-embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero, antigo frequentador do evento, avalia que Davos é uma ocasião valiosa para o Brasil melhorar a sua imagem no exterior e detalhar as reformas estruturais em curso desde que Temer assumiu o Planalto. O diplomata, porém, observa que o governo “nunca deu a atenção que deveria” a assuntos indispensáveis para o empresariado nos anos 2010, como o meio ambiente, os direitos humanos e as questões indígenas e de igualdade de gêneros.  Neste ano, o tema do fórum são as desigualdads sociais

“Aqueles erros cometidos aqui, como o decreto sobre o trabalho escravo e outros desse tipo, tornam a imagem do país e do governo muito desfavorável. Hoje em dia, boa parte do prestígio de um político e de um estadista vem dessas áreas, nas quais a imagem do Brasil não é muito atrativa”, afirma Ricupero.  

Já o diplomata licenciado Antonio Freitas, que reforçou a equipe econômica brasileira nas embaixadas de Washington e Pequim, avalia que “o clima permanece bastante ruim para o governo” retornar à cena internacional. Ele constata que o presidente está enfraquecido pelas denúncias de corrupção, pela antecipação da corrida eleitoral – que envolve nomes de peso do seu governo, como o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) -  e por ter cada vez menos apoio para aprovar as reformas que planeja, como a da Previdência.

“Eles vão procurar vender a ideia de que há um novo Brasil e a economia está num processo de franca recuperação, mas não minha opinião essa narrativa é bastante duvidosa. A economia realmente parou de cair – até por uma questão estatística, já que a queda anterior foi muito brusca, vai haver alguma recuperação neste ano. Mas ela dificilmente vai se fazer sentir no conjunto da população”, opina o diplomata. “Os empregos criados são muito precários, no mercado informal. As contas públicas continuam muito deficitárias e não há perspectivas de grandes avanços nesse campo. A própria reforma trabalhista aprovada enfraquecerá as contas da Previdência, ao precarizar as relações de trabalho no país”, pondera.  

Descolamento entre política e economia

O professor de Relações Internacionais Paulo Wrobel, da PUC-Rio, consente que a situação política brasileira permanece “muito complicada” e as incertezas quanto ao futuro são “imensas”, em ano de uma eleição marcada pela polarização. Mas ele destaca que Davos é um evento no qual a economia e a política são menos conectados do que em outras cúpulas internacionais.

"Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, há essa percepção de que a economia se separou da política, até certo ponto. No caso dos Estados Unidos, apesar de um presidente controverso como o Trump, para dizer o mínimo, a economia americana vai muito bem, está pujante. No caso do Brasil, não podemos dizer o mesmo, mas houve uma certa separação. Há uma volta do dinamismo econômico, em contraste com a terrível situação política. Acho que os investidores observam isso", diz.

Os analistas concordam que, dificilmente, o país sairá de Davos com vitórias concretas para apresentar – o evento é mais um ponto de encontro do que um local de tomada de decisões. Entretanto, a presença do presidente da Eletrobras na comitiva chama a atenção, no momento em que o governo planeja privatizar a estatal – o fórum pode ser a ocasião de estreitar laços com potenciais investidores. 

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