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Expansão econômica mundial acentua desigualdades

Por Alfredo Valladão

A turma de Davos está cada vez mais bipolar. Eufórica e depressiva ao mesmo tempo. Nunca houve tanto otimismo desde a crise financeira global de 2009. Pela primeira vez nessa década, todos os indicadores econômicos globais estão no azul.

O Fundo Monetário Internacional já aumentou as previsões de crescimento para o ano que vem e mostrou que o PIB está crescendo em praticamente todos os países do mundo. Há muito tempo não havia um crescimento planetário tão sincronizado.

As Bolsas estão na lua. O consumo está aumentando em toda parte, e até o desemprego vem caindo. O preço das matérias primas deu uma recuperada – ainda modesta – e o comércio internacional voltou a crescer. Quem tem dinheiro está disposto a investir e está seriamente procurando oportunidades. Todos sorrindo no caminho do banco.

Falando de tudo o que pode dar errado

Só que entre sessões de meditação e negociatas, os donos do mundo reunidos na pequena cidade alpina suíça, passaram quase o tempo todo falando de tudo que podia dar errado. E não faltam razões para boas depressões. Se a economia parece melhorar, não é o caso da política. O perigo de uma guerra nuclear com a Coréia do Norte continua na agenda internacional. As consequências da mudança climática estão cada vez mais visíveis e catastróficas.

Milhões de migrantes e refugiados pelo mundo abalam sociedades inteiras. As tentações protecionistas, sobretudo por parte de Donald Trump, têm tudo para provocar uma guerra comercial com a China e até com a Europa. Washington vem paralisando o trabalho da Organização Mundial do Comércio, atacando os acordos multilaterais e regionais, e até sinalizando que poderia desvalorizar o dólar e se meter numa guerra do câmbio.

Enquanto isso, a China de Xi Jinping – grande defensora, em palavras, da globalização – decidiu dar marcha ré na sua liberalização econômica. De novo, Pequim vem fechando o seu mercado interno para os investimentos estrangeiros, e dando prioridade às empresas estatais.

Fase de expansão econômica

Mas a ameaça mais grave é que essa nova fase de expansão econômica está acentuando as desigualdades, não só sociais mas também territoriais. Vários países do mundo rico estão vivendo uma queda do desemprego, ou estão em vias de resolver o problema. Só que a renda dos trabalhadores não aumentou, como era de costume.

Dentro de um mesmo país, regiões ricas prosperam ao lado de espaços miseráveis. Os governos nacionais não tem mais meios suficientes para redistribuir riquezas de maneira equitativa. Uma situação que favorece movimentos políticos chauvinistas, anticapitalistas e antiglobalização. Aqueles que acusam os estrangeiros, as “zelites”, os robôs e as novas tecnologias de “roubarem” seus empregos tradicionais.

Uma onda que ameaça os governos democráticos e reforça os regimes autoritários que querem fechar as economias e frear a inovação tecnológica e produtiva. Tudo isso pode perfeitamente descarrilhar o trem da recuperação do crescimento econômico e de um mundo menos incerto e mais pacífico.

Na verdade, a mistura de otimismo e pessimismo da turma de Davos vem do fato que ninguém sabe interpretar o que está acontecendo. E que ninguém é capaz de enxergar o futuro. O planeta está vivendo uma revolução socioeconômica tão profunda quanto a revolução industrial do começo do século XX.

Novas formas de sociedade

Novos modos de produção, consumo e comunicação estão criando novas formas de sociedade. E portanto novos desafios políticos. Que tipo de representação política será capaz de se adaptar aos novos tempos? Como regulamentar a inovação permanente, mas sem impedir que ela avance e se acelere? Quem vai garantir a justiça social e territorial neste novo mundo?

A resposta passa por uma nova articulação entre instituições políticas locais, nacionais e supranacionais. O planeta globalizado deverá criar formas de regimes políticos globalizados ou afundará no caos e na violência. Os donos do mundo em Davos sabem disso. E sabem que estão em primeira linha. Para o bem ou para o mal. Razão de sobra para essa esquizofrenia toda.

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