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Demissões no Carrefour ilustram declínio dos hipermercados na Europa

Por Lúcia Müzell

O anúncio de 4,5 mil demissões na França e 1,2 mil na Bélgica pelo gigante Carrefour simboliza um declínio anunciado do modelo dos hipermercados, em baixa há mais de uma década na Europa. O conceito, nascido nos anos 1960, seduz cada vez menos consumidores, que migram para a internet ou para o comércio de bairro para fazer as compras cotidianas.

Há 50 anos, quando esse formato surgiu na França, as famílias eram maiores, moravam longe do centro das cidades e dependiam do carro para tudo. Hoje, as pessoas não vivem mais da mesma forma.

“Os franceses vieram para o centro das cidades, têm menos filhos e, como as metrópoles estão bem maiores, os jovens não têm mais carro”, observa a economista Pascale Hébel, diretora do setor de consumo do Centro de Pesquisas para o Estudo e a Observação das Condições de Vida, especializado na antecipação do comportamento dos consumidores. “Outro fator que faz com que esse modelo esteja cada vez mais distante do consumidor real é que os franceses passaram por crises sanitárias, como o escândalo da carne de cavalo, que geraram desconfiança em relação ao que eles comem. Eles agora precisam falar com os produtores – e o modelo de hipermercado não nos permite ter interlocutores.”

Uma "epicerie" de Paris, mercadinho de bairro. Flickr/ Creative Commons

A preocupação com a origem dos produtos faz com que o setor de orgânicos tenha crescido mais na França do que nos vizinhos europeus, nos últimos anos. Embora os hipermercados se esforcem para atender a essa demanda, eles permanecem impessoais demais para esse público, para o qual a qualidade e a praticidade passou a ter mais importância do que o preço baixo.

Atrasos na transição digital – o maior erro

Outro fator crucial é a transição digital, que se mostrou mal-sucedida na maioria das grandes redes na França. No seu plano de transformação, o Carrefour anunciou investimentos de € 2,8 bilhões, para tentar recuperar o atraso.

“As nossas pesquisas mostram que um quarto dos franceses já faz a maioria das compras de alimentos pela internet. Evidentemente, trata-se de um perfil de clientes mais urbanos, mais jovens e que utilizam a internet para todas as suas compras, além da comida”, afirma Hébel. “Mas a partir do momento em que você se priva de uma clientela como essa, se concentrando só na loja física, não vai dar certo – sobretudo se você se projeta para continuar forte daqui a dez ou 15 anos. É um fato: a loja física vai perder espaço.”

O tomate será tão bonito quanto o que eu mesmo escolho?

Um dos maiores desafios é satisfazer as expectativas quanto aos produtos frescos: os clientes ainda duvidam que a compra online de uma carne ou uma fruta será tão cuidadosa quanto se eles mesmos fizessem a escolha, na prateleira. Philippe Moati, professor de Economia da Universidade Paris-Diderot e cofundador do Observatório Sociedade e Consumo, avalia que uma tendência crescente é comprar todos os produtos secos pela internet e deixar apenas os frescos para a feira perto de casa.

“No setor de alimentação, começamos a ter serviços e e-commerce muito práticos para quem não tem tempo de ir fazer compras e, principalmente, não gosta de perder uma hora carregando o carrinho no supermercado”, constata o economista. “Durante muito tempo, os distribuidores tradicionais pensavam que não seria possível. Eles tentaram apenas transpor o modelo da loja na internet e não foi rentável. Até que surgiram outros atores digitais, em especial a Amazon, que abordaram o problema de outra maneira: não são mais lojas online, mas um serviço especializado em livrar as pessoas das compras cotidianas.”

Mas os especialistas advertem: os hipermercados não estão com os dias contados – embora a receita do setor só tenha caído nos últimos quatro anos, ele ainda responde por 50% das vendas do varejo francês. Os clientes fiéis permanecerão as famílias de classe média adeptas das compras em grandes quantidades, como indica Moati.

“Eu antecipo um longo declínio do formato hipermercado, mas sem desaparecer, afinal temos uma diversidade imensa de consumidores: cada um de nós tem expectativas diferentes. O hipermercado, ao oferecer muitas opções de tudo, é único neste gênero e vai continuar a ter espaço”, indica o professor. “A questão é saber quanto ele vai recuar.”

No Brasil, atacarejo segue promissor

Ao mesmo tempo em que vacilam na Europa, os hipermercados atiçam o apetite das grandes redes no Brasil. O Carrefour anunciou a abertura de 20 novas lojas no país, em especial o reforço do modelo do atacarejo – que alia quantidade com preço baixo.

“Esse formato atacarejo ganhou enorme projeção nos últimos anos porque responde a uma demanda do consumidor, que quer mais por menos, especialmente quando existe um quadro mais recessivo, que faz com que a sensibilidade a preço se torne ainda maior”, observa analista Marcos Gouvea de Souza, especialista em varejo e diretor-geral da consultoria Grupo GS&. “O e-commerce tem crescido mais do que o varejo tradicional, como em outros países, porém estamos num patamar abaixo dos países mais desenvolvidos. O e-commerce no Brasil representa aproximadamente 4% de todas as vendas do varejo.”

Gouvea de Souza ressalta que, na internet, as vendas de alimentos prontos, por meio de sites intermediários que oferecem conhecidas marcas mundiais, são as que apresentam melhor desempenho. Entre as grandes redes, nota o analista, o Grupo Pão de Açúcar se posicionou primeiro nas vendas online. “Mas, agora, todos estão desenvolvendo esse setor. A conjugação dos três maiores operadores de supermercados no Brasil com os operadores menores fará com o que crescimento do e-commerce de alimentos seja bastante superior às vendas dos supermercados tradicionais, no futuro.”

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