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Opinião: Analistas e imprensa europeia têm visão “deformada” do “mito Lula”

Por Lúcia Müzell

Com a experiência de quem trocou a França pelo Brasil há mais de 30 anos, o economista francês Jean-Yves Carfantan vivenciou o auge do crescimento brasileiro e agora acompanha de perto, em São Paulo, o turbilhão político e econômico pelo qual o país passa desde 2013. Mas, ao contrário da maioria dos seus compatriotas, o especialista em agronegócios e diretor da consultoria AgrobrasConsult viu com bons olhos a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, promulgada na semana passada pela 4ª região do Tribunal Regional Federal.

Carfantan avalia que muitos especialistas franceses e europeus, além de uma parcela da imprensa, continuam a alimentar “o mito” em torno do petista e ignoram os procedimentos judiciais existentes no Brasil. “Eu acho que eles são deformados pela ideologia e têm uma visão muito politizada das coisas. O que está acontecendo hoje no Brasil é muito doloroso para esses intelectuais porque isso significa o fim de um sonho e de uma visão romântica da esquerda latino-americana e dos governos do Lula – que foi até chamado pelo jornal Le Monde de ‘o pai dos pobres’”, pondera o economista, em entrevista ao programa RFI Convida.

Na opinião de Carfantan, essa visão ideológica, em especial dos franceses, sobre o que acontece no Brasil vem da época em que intelectuais brasileiros procuraram exílio político na França, durante a ditadura militar. Desde então, teceu-se uma relação muito próxima entre a esquerda francesa e esses brasileiros – dentre os quais, vários se tornaram fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), após a redemocratização.

“A visão é muito baseada em mitos. Por exemplo, quando se fala que o Lula promoveu um governo de redistribuição de renda e tirou um monte de gente da pobreza, é muito exagerado e muito longe da realidade”, constata o economista.

Condenação de Lula foi "passo importante rumo à maturidade", diz economista

O franco-brasileiro reconhece os avanços dos governos petistas nessa área, mas entende que eles foram muito limitados. “O que essa coalizão fez, durante quase 14 anos, a não ser tirar proveito da onda de cotações internacionais de commodities para aumentar as despesas públicas, sem resolver os problemas fundamentais do país de competitividade e desigualdade de renda – que, inclusive, era incentivada pelas políticas públicas de aposentadorias? Nenhuma reforma fundamental foi feita”, afirma o consultor.

Ele chama a atenção para o descontrole econômico que criou as condições para a maior recessão em décadas, e para a degradação do ensino fundamental no país, considerado “a chave para o país entrar no século 21 e poder crescer”. “A questão da educação tem de ser enfrentada como um investimento prioritário.”

Diante das acusações de corrupção que o ex-presidente enfrenta, Carfantan analisa que a condenação de Lula a mais de 12 de prisão pelo caso do apartamento no Guarujá significa “um grande passo rumo à maturidade” do Brasil. Para ele, houve “uma revolução” na magistratura nos últimos 20 anos. “Essa geração considera que a lei é a mesma para todos e começou a atuar no auge da corrupção instalada pelo PT.”

Para ouvir a entrevista completa, clique na foto acima.

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