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Economia brasileira pode crescer até 2,3% em 2018, segundo FMI

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A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, fala em uma conferência em Pequim, China, em 12 de abril de 2018. REUTERS/Martin Pollard

A economia brasileira terá uma melhora no crescimento chegando a 2,3% em 2018 e 2,5% em 2019. Isso será resultado do fortalecimento do consumo e do investimento do setor privado, segundo o relatório Perspectivas da Economia Mundial, divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) nesta terça-feira (17).


Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

O aumento vem depois da recessão que persistiu por 2015 e 2016, com o País, em 2017, voltando a apresentar crescimento (1%). A previsão atual está mais otimista que a anunciada na edição do relatório de outubro passado – 0,8 e 0,5 pontos percentuais acima do crescimento que havia, então, sido previsto para 2018 e 2019, respectivamente.

O crescimento ao médio prazo ficará em 2,2%, uma consequência do envelhecimento da população e da produtividade estagnada.

O relatório afirma que legislar a reforma da previdência continua a ser uma prioridade para assegurar que o gasto esteja compatível com a lei fiscal constitucional e garantir sustentabilidade fiscal de longo prazo. Além disso, o FMI diz que aproveitar o recente fortalecimento da atividade econômica a fim de melhorar o balanço principal no curto prazo representaria um complemento à estratégia de consolidação em geral.

“Reduzir barreiras comerciais tarifárias e não tarifárias ajudará a melhorar a eficiência e aumentar o crescimento da produtividade, além de que aprimorar a capacidade de o programa de concessões de infraestrutura atrair investidores pode ajudar a captar investimento do setor privado e preencher importantes lacunas na infraestrutura”, diz o relatório.

O FMI alerta que a incerteza política aumenta os riscos de implementação de reforma política ou a possibilidade de agendas reorientadas de política, inclusive no contexto das eleições que estão por vir, ou logo depois dessas, em diversos países, como Brasil, Colômbia, Itália e México.

“Governança fraca e corrupção de grande escala também podem diminuir a confiança e o apoio popular a reformas, prejudicando a atividade econômica”, segundo as perspectivas da instituição.

O panorama para a América Latina e o Caribe, de acordo com o relatório, continua a ser de recuperação gradual, com aumento no crescimento – 2% em 2018 e 2,8% em 2019 –, depois de a região ter sido, de 2014 a 2016, gravemente impactada pela queda no preço das commodities.

Emergentes

Os especialistas do FMI dizem que, em diversas economias emergentes, a inflação está relativamente controlada, em relação às médias históricas. “Aprimoramentos às estruturas de política monetária também parecem ter baixado as expectativas de inflação, especula o relatório, citando especificamente o Brasil e a Índia.

O relatório também alerta que, nos mercados emergentes de modo geral, há espaço para tornar o crescimento mais inclusivo e reduzir a desigualdade, aumentando a cobertura dos impostos de renda pessoais, baixando a carga de impostos indiretos e aumentando a participação de transferências aos grupos de renda mais baixa por meio de uma melhor orientação de meta.

“Transferências de dinheiro condicionais – adotadas, por exemplo, no Brasil e no México – vinculadas a matrícula em escola ou a comparecimento em clínicas de saúde podem diminuir a atual desigualdade e, ao melhorar os resultados em ensino e saúde, a futura desigualdade de renda”, sugere o relatório.

Brics

Os especialistas do FMI esperam que, em 2018, a inflação geral em dois dos membros dos Brics, Brasil e Rússia, permaneça controlada em torno de 3%-4%. A inflação deve subir no médio prazo, com o núcleo de inflação (medida que procura captar a tendência dos preços, desconsiderando distúrbios resultantes de choques temporários, também conhecida como “inflação subjacente") mais firme e o previsto discreto aumento nos preços das commodities. No entanto, a inflação deve permanecer em níveis bem inferiores à média da última década.

Em entrevista à RFI Brasil antes do relatório mais atual do FMI ser divulgado, Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, já havia apostado no sucesso das economias chinesa e indiana e não se mostrou otimista em relação ao Brasil e à Rússia. O novo relatório confirma as perspectivas do economista.

“Provavelmente, a China e a Índia vão ter um crescimento muito mais rápido do que a média mundial no decorrer da próxima década. Tenho muito menos confiança de que esse será o caso do Brasil e da Rússia”, disse Summers.

Para o economista, o futuro da economia brasileira é incerto e está vinculado a quem será o próximo presidente do País, pois “o Brasil tem problemas muito profundos de governança e gestão de mudanças estruturais”.

A inflação, entretanto, está contida no Brasil e na Rússia, mas subiu na Índia.

“Em muitos mercados emergentes e economias em desenvolvimento, a recente estabilidade ou apreciações das moedas em relação ao dólar americano ajudaram a manter o núcleo de inflação sob controle. O núcleo de inflação está por volta de baixas históricas no Brasil e na Rússia, onde a demanda tem se recuperado das grandes contrações de 2015 e 2016, ao passo que subiu na Índia depois de ter caído significativamente no segundo trimestre de 2017, devido a fatores únicos”, explica o relatório.

O FMI diz que o núcleo de inflação na China permanece estável em cerca de 2%.

Panorama mundial

O relatório indica que a economia mundial teve crescimento fortalecido em 2017 (3,8%), com uma retomada admirável no comércio em âmbito global. O crescimento mundial foi acionado pela recuperação dos investimentos nas economias avançadas, crescimento sólido e contínuo na Ásia emergente, uma escalada significativa na Europa emergente, além de sinais de recuperação em diversos países exportadores de commodities.

“O crescimento global deve chegar a 3,9% neste ano e no próximo, respaldado por um robusto impulso, sentimento favorável do mercado, condições financeiras complacentes, além das repercussões domésticas e internacionais de uma política fiscal expansionista nos Estados Unidos”, diz o relatório.

A perspectiva de crescimento para as economias avançadas é de 2,5% em 2018 e 2,2% em 2019 (em 2017 foi de 2,3%). Os EUA devem ver um crescimento de 2,9% e 2,7% em 2018 e 2019, respectivamente, enquanto que a projeção para a zona do euro é de 2,4% em 2018 e 2% em 2019.

O crescimento econômico da Alemanha em 2018 está projetado para ser igual ao de 2017 (2,5%), caindo para 2% em 2019. A França deve ver um aumento no crescimento em relação a 2017 (1,8%), com 2,1% em 2018 e 2% em 2019. Já o Reino Unido, que teve crescimento de 1,8% em 2017, verá uma desaceleração com 1,6% e 1,5% em 2018 e 2019, respectivamente.

Os grandes destaques dos Brics continuam sendo a China e a Índia. A China, no entanto, depois de apresentar crescimento de 6,9% em 2017, tem 6,6% e 6,4% projetados para 2018 e 2019, respetivamente. Já a Índia, com crescimento de 6,7% em 2017, continuará firme na escalada, com 7,4% em 2018 e 7,8% em 2019.

De acordo com o FMI, a recuperação parcial dos preços das commodities deve permitir uma melhora gradual das condições para seus exportadores. Os economistas da instituição, preveem que, no médio prazo, o crescimento global deve cair para cerca de 3,7%.

“Depois que a escalada cíclica e o estímulo fiscal dos EUA terminarem, as perspectivas para as economias avançadas permanecerão contidas, dado seu lento crescimento em potencial”, indica o relatório.

No entanto, segundo as previsões do FMI, o crescimento dos mercados emergentes e economias em desenvolvimento, permanecerá próximo ao nível projetado para 2018 e 2019, conforme a recuperação gradual para os exportadores de commodities e um maior crescimento esperado para a Índia equilibram relativamente a desaceleração gradual da China e a volta da Europa emergente à sua taxa de crescimento de tendência mais baixa.

Desigualdade e riscos

O relatório também alerta que, apesar do panorama positivo de modo geral, 40 mercados emergentes e economias em desenvolvimento devem apresentar crescimento mais lento per capita do que as economias avançadas, não conseguindo diminuir a diferença em renda em relação às economias mais prósperas. Os economistas do FMI alertam que as condições financeiras fáceis e a inflação baixa persistente podem dar espaço para vulnerabilidades financeiras, resultando em um rápido aperto das condições financeiras globais, prejudicando a confiança e o crescimento.

O FMI enfatiza o risco que políticas protecionistas podem representar, como deterioração do comércio internacional, além de tensões geopolíticas, sugerindo que a atual conjuntura favorável oferece uma oportunidade para políticas e reformas que protejam a ascensão e o aumento do crescimento no médio prazo para o benefício geral, “solidificando o potencial para um crescimento maior e mais inclusivo, desenvolvendo mecanismos de proteção que ajudem a lidar de modo mais eficaz com a próxima crise, aumentando a resiliência financeira para conter os riscos do mercado financeiro e fomentando cooperação internacional”. O relatório também alerta que o “apoio à globalização parecer ter enfraquecido em algumas economias avançadas”.

O relatório Perspectivas da Economia Mundial foi divulgado durante as Reuniões de Primavera do FMI e do Banco Mundial, que estão sendo realizadas durante esta semana, em Washington.