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Guerra comercial: visando liderança global, EUA e China não devem recuar

Por Ligia Hougland

Uma delegação chinesa chega nesta quarta-feira (22) em Washington para discutir com autoridades norte-americanas a respeito das sobretaxas impostas sobre os produtos da China. Os dois países visam a liderança global, mas os membros republicanos do Congresso temem que a guerra comercial de Trump atrapalhe suas candidaturas à reeleição em novembro, especialmente se atingir as empresas dos EUA.

Da correspondente da RFI em Washignton, Ligia Hougland

O presidente norte-americano Donald Trump afirmou na segunda-feira (20) que não espera muito do diálogo – e ele provavelmente está certo. As negociações com a China devem ter um avanço mínimo após as reuniões desta semana. É a primeira vez em dois meses que representantes das duas nações vão se encontrar para tratar do impasse comercial.

Apesar da China ter dito que espera bons resultados, parece que nenhuma das partes está realmente apostando nisso, pois não estão enviando pesos-pesados para essa rodada de conversas. O principal enviado de Pequim é Wang Showen, vice-presidente de comércio, e a delegação americana será liderada pelo vice-secretário do tesouro para assuntos internacionais, David Malpass. O fato de nenhum desses representantes ter autoridade para fechar um acordo significativo é um indício de que a ideia é só manter o diálogo aberto, sem pressa de uma resolução imediata da disputa.

É importante para os presidentes dos dois países que eles continuem com a linha dura, pois ambos têm interesse em vencer a disputa comercial no longo prazo, mesmo que isso signifique prejuízos de curto prazo para suas economias, portanto nem China, nem EUA devem recuar. Os planos ambiciosos do presidente chinês Xi Jinping de ocupar a posição de líder mundial não são um segredo.

A disputa comercial é, portanto, só um fator dentro da verdadeira briga entre os EUA e a China pela posição de líder em um cenário global em transformação. Mesmo que o diálogo comercial avance um pouco no futuro próximo, isso seria apenas uma pequena peça de um grande quebra-cabeça geopolítico.

Os especialistas em política comercial também não estão com grande esperança nem para as reuniões desta semana em Washignton, nem para os dois encontros de Trump e Jinping agendados para novembro, em uma cúpula asiática, em Papua Nova Guiné, e durante o G20, na Argentina.

Disputa deve se intensificar

A Casa Branca está disposta a manter o jogo duro e deve ainda nesta semana impor tarifas sobre uma gama ainda mais ampla de importados da China. O escritório de Representação Comercial dos EUA começou uma série de audiências abertas ao público visando discutir os planos de Trump de cobrar impostos de mais de US$ 200 bilhões sobre produtos chineses. Isso, combinado com os impostos já aplicados sobre US$ 50 bilhões de importados chineses, significa que, até setembro, cerca da metade dos itens importados da China por empresas americanas pode sofrer impostos especiais.

Apesar de alguns representantes do governo de Xi Jinping já terem se mostrado preocupados com a desaceleração da economia, Pequim, por enquanto, está respondendo na mesma moeda. Os EUA já aplicaram impostos a US$ 34 bilhões de importados chineses, resultando em uma retaliação equivalente da China.

Trump disse que está lutando pelos interesses dos EUA, que há décadas têm sofrido com as práticas comerciais chinesas, consideradas pelo presidente norte-americano injustas e antiéticas. O governo chinês nega, mas os americanos alegam que suas empresas revelam segredos comerciais para conseguir acesso ao mercado. Além disso, os EUA dizem ser vítimas de roubo cibernético de tecnologia e acusam os chineses de manipulação do yuan para ter vantagem nas negociações internacionais.

Governo Trump se vê dividido entre apoiadores e críticos da guerra comercial

A Câmara do Comércio dos EUA já declarou que um acirramento na disputa entre as duas nações “aumenta drasticamente o prejuízo aos consumidores, trabalhadores, negócios e à economia americana”. O escritório de Representação Comercial dos EUA já recebeu mais de 1.300 comentários contra o plano da Casa Branca de impor mais tarifas a produtos da China.

Além disso, proprietários de empresas de pequeno e médio portes, como fabricantes de velas e produtores de semicondutores, dizem que dependem das mercadorias chinesas para sobreviver e não têm como arcar com o aumento dos custos resultantes dos impostos e tarifas adicionais. Alguns dizem que a guerra comercial pode levá-los a demitir funcionários e até mesmo a fechar seus negócios.

O governo Trump está dividido entre os que querem que as empresas americanas parem de depender de fábricas chinesas e aqueles, como o secretário do Tesouro, Steven Mnunchin, que defendem políticas comerciais convencionais. Mas a briga com a China é uma das marcas do discurso de campanha de Trump e é improvável que ele fique mais maleável quanto a isso, conforme se prepara para uma possível reeleição em 2020.

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