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Medidas econômicas de Maduro são incoerentes e explosivas, dizem analistas

Por Adriana Moysés

Muitos venezuelanos e especialistas em economia e relações internacionais receberam com pessimismo o novo pacote de medidas econômicas lançado pelo presidente Nicolas Maduro. A moeda nacional sofreu uma megadesvalorização, perdendo cinco zeros, e deu lugar ao bolívar soberano.

Em 1° de setembro, o salário mínimo sofrerá um aumento de quase 3.500%, o quinto reajuste do ano. Com o atual, não é mais possível comprar um quilo de carne.

Na avaliação do economista Werner Corrales, ex-embaixador da Venezuela na Organização Mundial do Comércio (OMC) e ex-ministro do Planejamento, o conjunto de medidas é "absolutamente incoerente".

"Elas irão provocar a quebra de muitas empresas e a obrigação do governo de estar novamente emitindo moeda, fazendo com que a inflação se multiplique. Vai ser um caos. Essas medidas significam o fim do governo Maduro."

Segundo Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), este é o pacote mais radical e arriscado aplicado em Caracas nos últimos anos, com chances de sucesso praticamente nulas.

"A medida da alteração da moeda, no fundo, é só para 'inglês ver'. Ela não resolve nenhuma das principais causas da inflação, que é a produção de dinheiro de maneira não disciplinada e também a escassez de produtos, que eleva os preços", observa Stuenkel. Como o economista Corrales, o especialista da FGV-SP considera que o reajuste do mínimo será insustentável para as empresas. "Elas têm dois caminhos: ou vão ignorar a medida ou vão demitir seus empregados, agravando o problema da imigração nos países vizinhos", destaca.

Maduro decidiu ancorar o salário mínimo, as aposentadorias e a base dos salários para todas as faixas salariais do país em meio petro, a criptomoeda criada para obter liquidez. Cada petro equivale a cerca de 60 dólares, com base no preço do barril do petróleo venezuelano.

Carolina Silva Pedroso, coordenadora do curso de Relações Internacionais na Universidade de Ribeirão Preto, emite reservas em relação a essa alternativa num momento em que a Venezuela não conta com a confiança dos mercados internacionais. Por outro lado, ela é menos pessimista do que a maioria dos analistas e acredita que as reformas de Maduro podem trazer um alívio temporário ao país.

"Militares controlam mercado paralelo"

É alto o risco de as novas medidas não conterem a espiral inflacionária. Até a semana passada, antes da chegada das novas cédulas, o FMI previa uma inflação de 1.000.000% para 2018 na Venezuela. Esta situação dramática para a maioria da população, que enfrenta escassez de alimentos, remédios e produtos de primeira necessidade, atende aos interesses dos militares, principal força de apoio a Maduro.

"As Forças Armadas têm acesso privilegiado aos poucos produtos que circulam no mercado venezuelano e controlam sua distribuição. Num mercado de escassez, é muito fácil vender esses produtos no mercado negro por um preço altíssimo. Então, no fundo, as Forças Armadas não querem uma reforma nesse momento. Mesmo piorando a situação nos próximos meses, acredito que Maduro ficará no poder."

Imigração vai aumentar

A tendência nos próximos meses é de um agravamento do êxodo dos venezuelanos para os países vizinhos, segundo o professor da FGV-SP.

"Os venezuelanos mais ricos já saíram para os Estados Unidos e a Espanha. A próxima onda será de pessoas muito pobres, que não têm o que comer e a maioria vai para a Colômbia, depois para o Equador, o Peru e o Brasil. É fundamental que os países vizinhos mantenham as fronteiras abertas e ajudem na integração e na distribuição dos venezuelanos nos territórios dos países vizinhos."

Diante da multiplicação de incidentes envolvendo os imigrantes venezuelanos na região, o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, pediu para que se "mantenham as portas abertas ao povo da Venezuela, vítima da pior crise humanitária que o continente já viu".

Apesar da tensão interna e da troca de farpas entre Maduro e o presidente americano Donald Trump, a Venezuela mantém uma relação econômica forte com os Estados Unidos. O principal comprador de petróleo venezuelano continua sendo o governo americano.

Em relação aos apoios externos, a Rússia e a China têm sido essenciais para a manutenção de Maduro, principalmente no suporte financeiro, além de Cuba, numa dimensão mais política. Nos últimos meses, no entanto, Stuenkel nota uma preocupação crescente de Pequim em não querer aparecer como corresposável pelo caos na Venezuela.

A China também quer recuperar os créditos que possui com o governo venezuelano, da mesma forma que não quer que essa relação se torne um ponto de atrito com os Estados Unidos. O professor da FGV-SP não acredita que haverá movimentos abruptos nesse tabuleiro.

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