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França: Plano com mais de 100 medidas visa integrar refugiados em mercado de trabalho

Por Márcia Bechara

Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o acesso ao mercado de trabalho na França é um dos direitos mais difíceis a serem exercidos pelos refugiados que devem enfrentar, além de todas as dificuldades, a desconfiança dos trabalhadores locais. Para mitigar essas dificuldades, a agência das Nações Unidas para os refugiados e a OCDE, a organização de cooperação e desenvolvimento econômico, baseada em Paris, lançaram esta semana a versão francesa de um plano de ação para aumentar a contratação de refugiados.

O primeiro documento produzido pela OCDE e pela agência da ONU para os refugiados foi lançada em inglês, em Genebra, na sede das Nações Unidas, em abril deste ano. Segundo o economista Jean-Christophe Dumont, responsável pela divisão de imigração internacional da OCDE, em Paris, o relatório permite identificar obstáculos concretos aos quais os refugiados são confrontados na busca pelo emprego. “Desta forma, podemos acompanhá-los, mas também seus empregadores”.

“O plano contém 10 ações, mais de 112 medidas, e leva informações aos empregadores sobre quem tem o direito de trabalhar e em que condições, que tipo de visto de trabalho as pessoas podem obter, porque geralmente as empresas não sabem esse tipo de coisa. É preciso facilitar o acesso a esse tipo de informação. Podem ser coisas concretas, como as modalidades de processos de recrutamento, ou, no caso dos refugiados, a dificuldade de provar a experiência em algum setor, de fornecer certificados de empregadores antigos”, diz Dumont.

Segundo o especialista da OCDE, é preciso ser "realista". "Se olharmos a Europa em sua totalidade, essa crise de refugiados que vieram não só da Síria, mas também dos Bálcãs, do Afeganistão e do continente africano, representa milhões de pessoas, mais ou menos um milhão e meio de pessoas que conseguiram o estatuto de refugiado na Europa. Mas os números são inexpressivos em relação ao mercado de trabalho, nem todos têm idade para trabalhar, é um aumento de 2,5% no máximo da população ativa no continente, ou seja, um impacto muito limitado sobre o mercado de trabalho”, avalia.

Desconhecimento da língua francesa é maior obstáculo

Para Anne-Marie Morel, diretora da associação Objetivo Emprego Solidariedade, que ajuda refugiados e desempregados a encontrarem trabalho na França, o domínio, mesmo que mediano, da língua francesa, é uma das principais barreiras aos migrantes recém-chegados em território francês.

“Recebemos pessoas que desejam ser formadas na associação para se tornarem agentes de limpeza e manutenção de espaços verdes. Quando os recebemos, propomos umcontrato de trabalho de seis meses renováveis até 4 vezes, e o objetivo da associação é lhes ajudar a se integrar e a encontrar um trabalho regular na sequência”, afirma.

Para Morel, a principal dificuldade que eles encontram para trabalhar na França é o aprendizado da língua francesa. “Isso exige muitas horas de aprendizado às quais os refugiados não têm acesso. Uma vez que eles têm acesso a esse aprendizado, é necessário achar um trabalho que os permita estudar para que eles possam entender o que é solicitado e também se exprimir. Então, claro, são pessoas menos reativas e desvalorizadas no mercado de trabalho”, diz.

De economista a encanador

O afegão Safiullah, de 26 anos, chegou à França em dezembro de 2015, depois de uma passagem traumática pela Bulgária, onde chegou a ser preso e deportado. Aceito com o estatuto refugiado de guerra na França, ele tem agora um documento que lhe permite trabalhar, com validade de 10 anos. Economista de formação, o jovem afegão teve que fazer uma reconversão profissional.

“Sou formado em Economia, mas não sei em que nível de qualificação estou aqui na França, porque não consegui fazer o pedido de equivalência de diploma. Depois, como não obtive o diploma, foi complicado conseguir trabalho com o nível do meu francês. Retomar os estudos também foi complicado. Eu não falava francês, mas falava inglês. O primeiro trabalho que encontrei foi lavando pratos e fazendo limpeza num hotel, a dona falava inglês também”, relata.

“Decidi então procurar uma formação. Deixei meu diploma de lado, e decidi mudar de profissão. Fiz uma formação de encanador especializado em aquecimento. Me formei em 4 de setembro e hoje em dia trabalho num canteiro de obras como encanador”, conta Safiullah à RFI.

Valorizar o savoir-faire das mulheres refugiadas

Ludna Sibi é a co-fundadora do “Meet My Mama”, empresa que se destina a valorizar o talento culinário de mulheres vindas de todo tipo de imigração, como os refugiados. “Nós nos demos conta que estas mulheres tinham um talento não-valorizado, então nos dissemos que iríamos revelar ao mundo este talento, lhes oferecendo oportunidades econômicas, mas também formações e acompanhamentos profissionais para permitir a essas mulheres de passarem de um estatuto de dona de casa ou refugiada a um posto de chefe de sua própria empresa, e independente”, conta Sibi.

“Neste momento, realizamos cerca de 100 eventos por ano, seja para 20 ou 2000 pessoas. Temos ‘Mamas’ que trabalham continuamente e outras de tempos e tempos e algumas ganham muito bem. Elas são formadas na ‘Mama Academy’, sobretudo para as mulheres refugiadas, com cursos de francês adaptados para o setor de restaurantes, para que elas possam ter o vocabulário adequado”, conclui a jovem empresária.

A reportagem da RFI tentou entrevistar diversas representantes de grandes empresas francesas como SNCF ou MerAlliance, além do Medef, o maior sindicato patronal da França, sem resposta. Segundo Jean-Christophe Dumont, o tema da integração de refugiados no mercado de trabalho continua sendo um tabu para grandes empresas que, mesmo se contratam migrantes, não fazem declarações públicas nem abordam números desta economia migrante com facilidade.

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