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Em crescimento, fundos ativistas viram acionistas para mudar empresas por dentro

Por Lúcia Müzell

Qualquer empresa cotada na bolsa teme a chegada de um acionista indesejado: os fundos ativistas. Em geral, são investimentos que visam mudanças na gestão da companhia com vistas a recompensas financeiras de curto prazo. Mas, em casos específicos, podem forçar evoluções na governança da companhia por dentro, de olho em questões sociais como paridade, desenvolvimento sustentável ou diversidade.  

Comum nos Estados Unidos, a atuação dos fundos ativistas registra um forte crescimento também na Europa. Nos últimos cinco anos, o número de grupos “atacados” subiu 60%.

O alvo costuma ser uma empresa que, segundo os ativistas, tem potencial de registrar mais lucros se algumas modificações forem implementadas. Os ativistas entram com uma participação minoritária no capital e, uma vez dentro, forçam modificações ao influenciar os demais acionistas ou promovendo ações midiáticas que chamam a atenção sobre o problema em questão.

Nenhum setor é poupado – da tecnologia à alimentação. Eles podem se opor a um plano de fusão, por exemplo, ou até à permanência de um dirigente no comando da companhia.

“O objetivo desses fundos é simplesmente ganhar dinheiro, visando sociedades mal gerenciadas e que estão mal avaliadas. Eles entram para mudar a estratégia delas, promover melhorias nas margens operacionais e os lucros”, explica Michel Albouy, professor de finanças da Grenoble École de Management. “Em seguida, promovem operações bem midiáticas para forçar os dirigentes dessas companhias a tomar consciência sobre o que eles estão fazendo.”

Elliot, maior fundo ativista do mundo

O exemplo mais recente na Europa foi a entrada do Elliot, o maior fundo ativista do mundo, no capital da francesa Pernod Ricard. Mas há outros casos mais emblemáticos.

“Neste momento, a Nestlé é visada por um fundo ativista, assim como as francesas Pernod Ricard e Danone, que estão sendo forçadas a aumentar a rentabilidade pela margem operacional. No caso da Nestlé, eles querem que ela se desfaça da sua participação na L’Oréal e está funcionando, porque a Nestlé está considerando fazer isso”, relata Albouy.

Promover evolução à força

E para uma parcela limitada de ativistas, esse adjetivo remete ao seu sentido mais político: o de promover alterações de governança nas grandes companhias. Nestes casos, o que conta é fazer o maior alarde possível sobre temas delicados, de modo a atrair a atenção da imprensa e, com sorte, dos governantes. Organizações como Amigos da Terra e Greenpeace, ou ainda fundos de investimentos éticos, como igrejas, são os mais motivados.

“No ano passado, eles causaram constrangimentos em vários bancos, como HSBC, BNP Paribas e Societé Générale, sobre os investimentos que eles fazem na indústria do carvão ou em minas instaladas em países emergentes, nas quais os direitos humanos dos funcionários, inclusive crianças, não estavam sendo respeitados”, explica a professora da Essec Viviane de Beaufort, especialista em governança e direito empresarial na Europa. “São atores da sociedade civil que compreenderam que, para influenciar na política da empresa, seria preciso entrar nela, comprando ações e indo questionar para fazer ativismo social.”

Beaufort analisou as assembleias-gerais de acionistas das 40 companhias cotadas na bolsa de Paris, entre 2012 e 2018, e o efeito que o ativismo social provocou. Os casos de evolução na legislação após um escândalo detonado por um fundo deste tipo começam a se tornar comuns.

Por exemplo, a remuneração milionária dos dirigentes é cada vez mais questionada nas assembleias – um ponto que, antigamente, era aprovado sem maiores contratempos.

“Como é publicado, gravado e sai na imprensa e nas redes sociais, eles adquirem uma enorme influência apenas fazendo uma pergunta na assembleia-geral de acionistas. Na França, o ativismo é positivo porque permite apontar o dedo em direção a práticas de má governança que são quase fora da lei ou anti-éticas”, constata Beaufort.

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