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Desconfiança sobre investimentos chineses leva a reação internacional

Por Lúcia Müzell

A desconfiança em relação aos chineses nunca esteve tão forte desde que Pequim entrou com força nos investimentos externos, a partir dos anos 1990. Na Europa, as quedas de aquisições e parcerias com a China se acentuam nos últimos dois anos, culminando com redução em 40% em 2018 – uma tendência que se repete em outros países do mundo, dos Estados Unidos a potências africanas como o Quênia.

O escândalo envolvendo a atuação da fabricante Huawei em território americano, onde é suspeita de espionagem, cristaliza essa reação ocidental ao poderio chinês no exterior. Outro exemplo: no ano passado, o governo alemão proibiu a venda da indústria de ferramentas e máquinas Leifeld Spinning para um grupo chinês.

Em 2018, os negócios da Europa com a China caíram para € 17,3 bilhões, a metade do que havia sido registrado em 2016.

O economista Jean-Christophe Boillot, especialista em países emergentes do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, de Paris, vê com naturalidade a preocupação ocidental em relação aos interesses chineses, já que o país se tornou uma potência não apenas econômica como geopolítica e militar.

“A China intervém onde, às vezes, existem fraquezas internas. Ela revela essas fraquezas e nos leva ao desafio de enfrentar problemas subjacentes”, sublinha. “Podemos fazer isso de duas maneiras: primeiro, buscando um espaço de concorrência leal, com mais simetria na relação entre a China e o resto do mundo. A China permanece um mercado extremamente difícil de penetrar, em especial na área alta tecnológica. E há também uma série de ajustes e regulações que os países ocidentais devem fazer, com uma política clara de infraestrutura”, observa Boillot, citando atuações chinesas no aeroporto francês de Toulouse e portos na Grécia.

Europa se protege em tempo recorde

Em fevereiro, o Parlamento europeu adotou uma nova regulamentação, debatida em tempo recorde, para supervisionar melhor a entrada de investidores chineses. Desde 2017, sete países do bloco aperfeiçoaram os filtros para essas transações.

Mas nos países emergentes, o assunto é mais delicado – em troca de uma forte demanda por matérias-primas, a China se tornou o maior parceiro comercial de potências como o Brasil, onde está presente em setores cada vez mais diversificados. Pequim tem € 69,2 bilhões acumulados investidos no país desde 2003.

Em muitos casos, em especial na África, os chineses se posicionaram como um os principais agentes de desenvolvimento das infraestruturas, capazes de tirar do papel centenas de projetos milionários. Boillot observa que a maior proteção tem sido debatida em países como Costa do Marfim, Etiópia e Quênia, onde foram instalados comitês observadores da atuação chinesa.

Desenvolvimento x desconfiança

“Há uma reação em nível mundial a esses investimentos chineses, para compreender bem a lógica deles: se é apenas política, se é verdadeiramente uma partida entre dois ganhadores ou se há assimetrias dos ganhos em favor da China. E nada impede que os países emergentes criem instrumentos de regulação dos investimentos chineses e estrangeiros em geral”, ressalta Boillot. “A China muitas vezes é apontada como bode expiatório de uma situação que, na verdade, cabe aos próprios países resolver.”

Para o especialista francês, o cenário representa uma oportunidade para as companhias ocidentais, que podem reconquistar mercados com propostas mais adequadas em preço e produtos. A reação viria ao encontro dos planos do governo Bolsonaro, que almeja reduzir a dependência chinesa.

Porém Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, ressalta que, no caso brasileiro, as parcerias com a China trazem vantagens mútuas para os dois lados.

“A própria OCDE estima que o consumo de alimentos na China vai aumentar entre 11% e 13% ao ano pela próxima década, o que coloca o Brasil em uma posição sem par nas exportações de commodities para os chineses”, constata. “O Brasil tem uma complementariedade natural com a economia chinesa, mas vai depender de nós, brasileiros, fazermos o dever de casa, promovendo mais abertura da economia e fazendo as reformas necessárias para o Brasil ser competitivo”, diz Castro.

Desaceleração mundial

O ex-diplomata avalia que mais do que um temor, a queda dos investimentos chineses no Ocidente simboliza um efeito da crise econômica, com a diminuição brusca da atividade no mundo inteiro.

“Eu acredito que o que está acontecendo, na realidade, é uma certa perplexidade do resto do mundo, já que o centro de gravidade da economia mundial está se deslocando em direção à Ásia. Antigamente, falávamos só do Atlântico Norte. É obvio que isso causa um certo temor”, analisa Castro, que foi embaixador do Brasil na China.

Não é só do lado ocidental que o pé foi retirado do acelerador: Pequim também está mais cautelosa. O presidente Xi Jinping aumentou o controle das transações para evitar saída excessiva de capital chinês e garantir conforto para as reservas trilionárias do país.

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