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100 dias de Bolsonaro: governo terá de deixar viés ideológico para não perder mercados

Por Lúcia Müzell

Concessões aos Estados Unidos de Trump, desprezo pelo Mercosul, críticas à Europa e à China e provocações ao mundo árabe, todos grandes compradores de matérias-primas brasileiras. A nova marca ideológica da política externa assumida pelo governo de Jair Bolsonaro em seus primeiros 100 dias traz riscos ao comércio multilateral e aos investimentos estrangeiros no país, advertem analistas ouvidos pela RFI.

A tradição do Itamaraty sempre foi a neutralidade nos conflitos internacionais. A não ingerência nos assuntos internos dos outros países fez o Brasil se tornar uma das economias mais versáteis em parcerias comerciais. A estratégia reconhecia o Brasil como um global trader – nas últimas duas décadas, o país entreteve seus parceiros tradicionais e se abriu para a China e outros emergentes, inclusive a África. Sob Bolsonaro, essa dinâmica está ameaçada, na avaliação de Octavio de Barros, ex-economista-chefe de importantes instituições financeiras brasileiras e presidente do think thank República do Amanhã.

“Eu acho que a área externa do governo é a mais fraca. Não tem uma visão moderna de inserção do Brasil. É uma política externa muito ideológica que nos conduzirá, se continuar, a equívocos”, analisa Barros. “O Brasil tem uma diversificação de mercado impressionante. A sua relação com a Europa, em particular, é absolutamente crucial. Eu acho que é um grande equívoco essa aposta cega num alinhamento aos Estados Unidos, acalentando o sonho de que os americanos darão um tratamento diferenciado ao Brasil.”

Retomada econômica difícil

Os passos em falso ocorrem em um momento em que o país ainda patina para sair da crise. O desemprego voltou a aumentar em fevereiro, para 12,4% da população ativa, e as projeções de crescimento econômico para 2019 não param de cair: em três meses, a expectativa divulgada pelo Banco Central baixou de 2,5% para 1,97%.

A maioria dos analistas consente que a reforma da Previdência é fundamental para promover uma retomada econômica mais robusta. Ainda assim, o governo não deu a devida prioridade à sua principal pauta na área econômica, envolvendo-se em polêmicas rasas e menosprezando a comunicação com o Congresso.

“Existe uma vontade de ser de direita, mas sem um projeto claro de direita. Existe uma confusão, opiniões divergentes sobre modelos diferentes de liberalismo”, examina Flavio Comim, economista e professor da Universidade Ramon Lloll, de Barcelona, e professor associado da Universidade de Cambridge. “O governo abriu muitas outras frentes. Discutiu-se muito a relação com os Estados Unidos e Israel, com implicações na política comercial brasileira. Passou-se a discutir costumes e assuntos dos ministérios da Família, da Educação e do Meio Ambiente. Ou seja, se perdeu o foco.”

Comim avalia que Bolsonaro assume um risco elevado ao cortejar governos ideologicamente semelhantes e deixar de lado o pragmatismo que dominava as relações comerciais do país com o restante do mundo.

“As relações comerciais num mundo com Índia e China fazem com que o Brasil não seja tão essencial em algumas áreas, como já foi no passado. Grande parte do comércio internacional tem a ver com as relações de apreço e proximidade entre os países”, destaca o professor de Cambrigde. “O Brasil está conseguindo enfraquecer relações que já existiam. Nessa busca de referenciais para suprir um vazio ideológico do governo Bolsonaro, o Brasil está queimando pontes com muita gente.”

Afastamento do Mercosul e aproximação da OCDE

Algumas dessas pontes ligam o país aos seus vizinhos diretos. O presidente nunca escondeu o desprezo pelo Mercosul, desde que a Venezuela foi integrada ao grupo durante o governo petista. Para o coordenador-adjunto do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP, Alberto Pfeifer, trata-se de um erro estratégico:

“O governo atual tem a percepção de que o Mercosul não serve na política, portanto não serve na economia – o que é um engano, um engodo. O Mercosul tem enormes vantagens e virtudes”, destaca o professor da USP. “Durante a campanha, ele era apresentado como um problema a se livrar, como se fosse apenas o elemento que impedia o Brasil de ter maiores vinculações com o restante do mundo e fazer novos acordos. Isso está se mostrando como algo falseado. Não é por causa do Mercosul que o Brasil não é mais integrado ao mundo: é por causa do próprio Brasil”, explica.

Outra lacuna é em relação à União Europeia, um dos principais parceiros comerciais do Brasil. O governo brasileiro ainda não deu nenhum sinal de aproximação dos europeus desde a posse – pelo contrário.

Já a entrada do país na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) passou a ser uma prioridade. Na viagem aos Estados Unidos, Bolsonaro conseguiu o apoio de Donald Trump à candidatura do país, no que Pfeifer considera uma vitória.

O ingresso é uma das metas da área econômica comandada por Paulo Guedes. Para Octavio de Barros, o Ministério da Economia representa “uma ilha de excelência dentro de um governo caótico”. “Talvez a gente possa assistir a algum tipo de correção de rota da política externa, na medida em que o Ministério da Economia possa dar o tom de uma orientação mais estratégica, inteligente”, espera Barros. “O Brasil precisa muito de abertura econômica: é o país mais fechado do mundo sob qualquer critério. E a abertura é fundamental para o crescimento econômico.”

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