rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
Economia
rss itunes

Brasil não corre risco de “virar uma Argentina”, apesar de confusões de Bolsonaro

Por Lúcia Müzell

A demora do governo em avançar na reforma da Previdência, assim como as declarações contraditórias dentro do próprio Planalto sobre intervenção em preços e nas estatais, têm levado os mercados financeiros a emitir sinais de desconfiança em relação a Jair Bolsonaro. A aprovação da reforma ainda neste ano, carro-chefe da equipe econômica, é vista como a garantia de que o presidente vai continuar a contar com o apoio do empresariado, bancos e investidores – essencial para que o país não volte a afundar na recessão e não possa ser alvo de uma crise financeira, como ocorreu com a Argentina.

Os números não deixam dúvidas de que o país patina para voltar a crescer. O desemprego segue em alta, a mais de 12%, e a expectativa de crescimento em 2019 já passou de ao menos 2,5% para pífios 1,7%.

O economista Carlos Winograd, professor associado da Paris School of Economics (PSE), avalia que, neste contexto, a reforma da Previdência se tornou “a condição necessária para o início de um processo sustentável de crescimento”, ao assegurar a estabilidade fiscal a longo prazo e viabilizar a retomada de investimentos em infraestruturas e outras carências.

“Teve uma subestimação da complexidade política da experiência Bolsonaro. Ainda é muito cedo para julgar, mas era claro que haveria desafios muito complexos”, comenta. “Essa reforma virou o sinal central da capacidade de governo dessa administração. Ela sintetiza todos os elementos para mostrar se a experiência Bolsonaro será capaz de atacar os problemas macroeconômicos do Brasil.”

Reforma desidratada

O próprio governo já admite que o texto mais provável a ser adotado será “desidratado” em relação à proposta inicial do ministro Paulo Guedes, que previa uma economia de mais de R$ 1,1 trilhão com as mudanças nas aposentadorias. O economista Guilherme Mello, da Unicamp, considera que, por mais que os mercados desaprovem o resultado final, não deixarão de apoiar o governo Bolsonaro.

“O mais provável é que se aprove uma reforma do regime de repartição, e não a criação de um regime de capitalização, e a partir daí teríamos uma reação moderada dos mercados. As condições de liquidez se manteriam parecidas, mas têm se mostrado absolutamente insuficientes para puxar o crescimento”, afirma Mello. “A única possibilidade de o mercado pular fora mesmo é se tiver problemas lá fora. O mercado até então tem pensado:  “entregaram a reforma, mesmo que não seja exatamente a que a gente queria”. Mas se tiver alguma turbulência forte externa, pularia fora.”

Reservas protegem de crise cambial

No pior dos cenários – o de não aprovação da reforma ou de uma crise internacional -, o que poderia ocorrer com a economia brasileira? Os dois analistas rejeitam a tese segundo a qual o país seria alvo de uma grave crise cambial causada pela fuga de capitais, que provariam a desvalorização do real.

Atualmente, as incertezas contribuem para que a moeda brasileira se encontre num patamar baixo em relação à americana: de fevereiro para abril, o dólar passou de R$ 3,70 para em torno de R$ 3,90.

“Crise cambial, sim. Se vamos virar uma Argentina? Não. Não tenho a menor dúvida de que o Brasil está muito, muito longe disso”, constata o economista da Unicamp. “Devido à própria recessão, temos um cenário razoavelmente tranquilo em transações correntes, logo não precisamos de tanto financiamento externo assim. E, ao mesmo tempo, temos um cenário bastante cômodo e confortável de reservas internacionais. É uma herança que veio desde o governo Lula”, acrescenta.

"Virar Argentina"

Os R$ 380 bilhões de reservas cambiais brasileiras mantêm o país em segurança diante da possibilidade de um ataque especulativo. Winograd considera que, nesse aspecto, Brasil e Argentina “não têm nada a ver”. Ele destaca a solidez e a força institucional do Banco Central brasileiro:

“As duas economias têm alguns elementos em comum, em termos de problemas de crescimento e fontes de crescimento, problemas regulatórios e microecronômicos. Mas têm uma enorme diferença que é a posição de reservas do Banco Central”, destaca o professor da Paris School of Economics. “Nunca está garantido 100%, mas o Brasil já ganhou uma grande parte da batalha contra a inflação, enquanto a Argentina, de forma enigmática para a história econômica, ainda não conseguiu resolver essa questão. E a estrutura das dívidas e o tamanho dos mercados de capitais dos dois são radicalmente diferentes.”

Winograd ressalta ainda que a dolarização da economia do país vizinho inclui a dívida pública, o que gera uma alta vulnerabilidade da qual o Brasil está protegido. A Argentina, por sua vez, entra no segundo ano de recessão, em parte devido à demora da realização de ajustes fiscais aguardados pelos mercados. Na contracorrente da agenda liberal que o elegeu, o presidente Mauricio Macri acaba de determinar o congelamento de preços para frear a inflação.

No 1º salão após venda à Boeing, Embraer foca em defesa, jatos e inovação

Em meio a cortes na Defesa, governo acerta compra de mísseis europeus por € 200 mi

Cortes do governo Bolsonaro prejudicam agricultura familiar, apontam especialistas na FAO

Incentivos fiscais fazem doações milionárias à Notre-Dame recaírem sobre o Estado francês

Especialistas em dados e IA são disputados a peso de ouro pelas empresas

Desconfiança sobre investimentos chineses leva a reação internacional

Em crescimento, fundos ativistas viram acionistas para mudar empresas por dentro

Reforma da Previdência agrada mercados, mas pode aprofundar desigualdades

Brasil tem posição favorável no mercado mundial de grãos, dizem especialistas