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“Milagre econômico” de Trump é bomba-relógio no orçamento

Por Lúcia Müzell

Até os economistas ligados à esquerda são obrigados a reconhecer: a economia americana sob Donald Trump vai de vento em popa. O crescimento foi de 3,2% no primeiro trimestre, os salários estão em alta, a inflação segue sob controle, a 1,6%, e o desemprego nunca foi tão baixo desde 1969. Apenas 3,6% da população ativa não tem trabalho. Os números levaram o presidente a avaliar que opera um “milagre econômico” no país, nove anos depois de a crise financeira internacional ter elevado o desemprego ao patamar de 10%.

O índice invejável de agora se explica pela criação de centenas de milhares de novos empregos a cada mês, mas também pela diminuição da população ativa e quantidade elevada de empregos em meio turno ou autônomos da era digital, como motoristas de Uber. As desigualdades também persistem: o nível de desemprego de afroamericanos e latinos é mais do que o dobro entre os brancos.

Por outro lado, os menores salários são os que mais subiram (4,4% no último ano, enquanto a média foi de 3,5%). Os resultados globalmente positivos caem como uma luva para as eleições do ano que vem.

“Quando ele chegou ao poder, ele promoveu uma grande reforma fiscal, que resultou em queda de impostos e aumento das despesas. Isso apoiou o crescimento, que já era bastante dinâmico”, analisa Christophe Blot, especialista em economia americana do Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE), de Paris. “Uma parte dessa queda do desemprego é atribuída à situação econômica, portanto à política econômica do presidente Trump. É algo que ele poderá valorizar quando começar a campanha para as eleições presidenciais.”

Herança positiva

Mas o pesquisador francês ressalta que a retomada econômica lançada durante o governo de Barack Obama foi crucial para que, hoje, o líder republicano possa se beneficiar dos números favoráveis.

“Donald Trump contribuiu para manter o crescimento americano, mas é preciso destacar que o crescimento está sólido desde 2011. A dinâmica da queda do desemprego nos Estados Unidos começou bem mais cedo do que na zona do euro, por exemplo”, lembra Blot. “O crescimento do PIB de 0,8% começou no primeiro trimestre de 2009 e passou a gerar empregos. Essa dinâmica contribui para que, hoje, os Estados Unidos registrem essa baixa histórica do desemprego.”

O bom momento, entretanto, coloca embaixo do tapete uma bomba-relógio que cresce a cada dia: o peso da dívida pública. Por conta das reduções de impostos e o aumento das despesas militares, a dívida bateu o recorde histórico em 2018 e chegou a US$ 22 trilhões, superior ao PIB do país. O déficit é de quase US$ 780 bilhões.

Um relatório alarmante divulgado pelo Tesouro americano sublinhou que, nesse ritmo, o pagamento de juros da dívida poderá se tornar insustentável em 2024. Por enquanto, a situação se mantém sob controle graças porque o país consegue se financiar a uma taxa inferior a 3%.

“O déficit orçamentário está muito elevado. Em período de forte crescimento e alta do ciclo econômico, significa que, em algum momento, será necessário tomar medidas restritivas, senão a dívida pública vai aumentar sem limites”, explica Henri Sterdyniak, que estuda a economia internacional. “Existe esse calcanhar de Aquiles que, a curto prazo, não incomoda. Ele se beneficia do fato de que ao Banco Central não aumenta rapidamente as taxas de juros e os mercados financeiros não estão especulando contra o dólar.”

Trump desafia “Bíblia” dos economistas

Além disso, a conjuntura internacional também ajuda - o Brexit foi adiado, a China voltou a crescer e a Europa vai relativamente bem. Grandes economistas, como os vencedores do Nobel Joseph Stiglitz e Edmund Phelps, já comentaram que a chamada Trumpeconomics na realidade não existe: a política econômica comandada pelo republicano desafia as prerrogativas da maioria dos especialistas.

“Donald Trump vai contra todos os preceitos econômicos porque ele mantém um déficit público alto e está atacando o livre comércio. Ou seja, está diametralmente no sentido inverso da Bíblia de muitos economistas, que prega o equilíbrio orçamentário e o livre comércio”, nota Sterdyniak. “Nadando contra a corrente, Trump tem uma política agressiva que funciona.”

O presidente desfruta dos maiores índices de aprovação desde que assumiu a Casa Branca, em 2016: nesta terça-feira, uma pesquisa publicada pelo Instituto Gallup indicou que 46% dos americanos aprovam o governo (mas 50% desaprovam). Outra sondagem encomendada pela CNN no fim de abril mostrou que, na economia, a maioria dos entrevistados, 56%, está satisfeita.

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