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EUA não admitem depender da China no litígio com a Huawei, diz analista

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O decreto assinado por Donald Trump barra a entrada de equipamentos da Huawei em setores sensíveis. REUTERS/Tyrone Siu/File Photo

A China advertiu nesta quinta-feira (16) os Estados Unidos contra "prejuízos" às futuras relações comerciais com os Estados Unidos depois que o presidente americano, Donald Trump, barrou o gigante de telecomunicações chinês Huawei do mercado norte-americano, aumentando as tensões entre as duas maiores potências econômicas do mundo.


A disputa em torno da Huawei aumenta as incertezas sobre as negociações visando um acordo que poderia acabar com a feroz guerra comercial travada entre Washington e Pequim. Nos últimos dias, os dois lados aumentaram suas tarifas aduaneiras de importação.

O francês Jean-François Dufour, autor do livro "China Corp. 2025 – Nos bastidores do capitalismo à chinesa" (editora Máxima) e diretor de uma empresa de consultoria especializada no mercado chinês, não estranhou o decreto de Trump. Ele lembra que o conflito entre os Estados Unidos e a Huawei remonta há dez anos, portanto bem antes de Trump se instalar na Casa Branca. "Esse enfrentamento era previsível e chega agora ao ponto central da disputa entre os dois países", estima Dufour.

Segundo o especialista, o caso Huawei é particular por dois aspectos. Existe a ameaça à segurança nacional evocada no decreto, uma vez que os americanos temem que os equipamentos da Huawei sirvam de meio de espionagem para o governo chinês, mas isso não é novo. Por outro lado, a disputa mudou de perspectiva atualmente.

"O que os Estados Unidos tentam impedir é que a Huawei tome a dianteira tecnológica em setores sensíveis. Seria uma situação inédita, se uma empresa chinesa colocasse uma companhia americana em situação de dependência tecnológica", explicou Dufour em entrevista à RFI.

Segundo o analista, o problema hoje não são os aparelhos de telefone fabricados pela Huawei, nem o temor de espionagem, que vale para os dois lados, e sim as infraestruturas de comunicação visadas pelo decreto, que de fato representam um risco real de mudança de posição hierárquica nas relações sino-americanas. Essa competição tecnológica está no centro do conflito. Depois que a Huawei conseguiu se posicionar como líder mundial com a 5G, os Estados Unidos não toleram ser contestados pela liderança tecnológica da China, explica o consultor.

Dufour não acredita que Pequim adotará represálias ao decreto, uma vez que ainda quer receber transferência de tecnologias dos EUA. "Além do mais, a Huawei vai mundo bem, exportando para outros mercados. Retaliar Washington seria dar um tiro no pé", acredita o francês.

Intimidação

O Ministério do Comércio chinês declarou não dispor de informações sobre o envio de uma delegação americana a Pequim, para continuar as negociações suspensas na semana passada, conforme foi cogitado durante a visita do vice-primeiro-ministro Liu He a Washington. O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, disse que provavelmente visitará a China em um futuro próximo, mas a data permanece vaga.

"As táticas de pressão máxima e intimidação fizeram com que as negociações econômicas e comerciais entre a China e os Estados Unidos sofressem um sério revés", disse o porta-voz do ministério do Comércio chinês, Gao Feng, em uma coletiva de imprensa semanal.

China prende canadenses em desdobramento do caso Huawei

Ao mesmo tempo, as relações diplomáticas de Pequim com o Canadá ainda azedaram nesta quinta-feira, depois de a China prender dois canadenses por suspeita de coletar, roubar e transmitir segredos de Estado chineses ao exterior, em um caso visto como uma retaliação à prisão de uma executiva da Huawei.

Os canadenses Michael Kovrig, ex-diplomata em Pequim, e o consultor e empresário Michael Spavor, especialista na Coreia do Norte, tinham sido detidos no ano passado, dias depois de o Canadá deter, a pedido de Washington, a diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, agora visada por um pedido de extradição dos Estados Unidos.

Os canadenses Michael Kovrig (esquerda) e Michael Spavor (direita). Montagem/Fotos: AFP

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, chamou de "inaceitável" a prisão dos dois cidadãos de seu país e disse que fará tudo para defendê-los. Trudeau reagiu à medida chinesa durante uma visita a Paris, nesta quinta-feira, e logo após se reunir com o presidente Emmanuel Macron.

Macron diz que UE não vai barrar Huawei

Macron disse que não pretende proibir a entrada de equipamentos da Huawei. "A França e a Europa são pragmáticas, realistas: nós queremos desenvolver empregos, atividade, inovação e nós acreditamos na cooperação e no multilateralismo", disse o presidente durante discurso no salão de tecnologia Vivatech, organizado em Paris.

"Ao mesmo tempo, para a 5G e outros tipos de inovação, estamos extremamente atentos no que diz respeito ao acesso a tecnologias essenciais para preservar nossa segurança nacional", acrescentou. "Mas penso que iniciar uma guerra comercial ou tecnológica contra um outro país não é judicioso", concluiu o líder francês.