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Portugal: “milagre econômico de esquerda” terá novos desafios após a crise

Por Lúcia Müzell

Com índices macroeconômicos de fazer inveja a qualquer vizinho europeu, Portugal reelegeu o governo de esquerda que está no poder desde 2015, protagonista de uma recuperação exemplar da grave crise que o país atravessou há 10 anos. A situação confortável de estar com a casa em ordem agora expõe o segundo mandato do premiê socialista António Costa a outros desafios – como desenvolver a malha industrial, melhorar os salários e aumentar a produtividade.

A receita de Costa, coligado com o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e os Verdes, é recheada de elementos contrários aos preceitos da União Europeia e de instituições como o FMI, que resgatou o país no auge da crise econômica, em 2011. O governo reverteu medidas de rigor tomadas pela gestão anterior, do conservador Pedro Passos Coelho, e voltou a aumentar os salários dos funcionários públicos e os benefícios das aposentadorias. A demanda interna cresceu e estimulou o consumo, observa o pesquisador da Universidade de Coimbra José Reis.

“Uma política redistributiva é também uma política de dinamização da economia, de criação de maior riqueza, mais emprego e menos necessidade do Estado intervir com políticas de assistência e correção de problemas. São medidas criadoras de riquezas, que geram mais equilíbrio”, comenta.

Com ênfase no impacto social, a austeridade de esquerda cortou os impostos sobre o consumo e conseguiu derrubar pela metade o desemprego (de 12,6% em 2015 para 6,2% em 2019), ao mesmo tempo em que promoveu um retorno inédito ao equilíbrio fiscal. Neste ano, o país deve ter excedente orçamentário de 0,2%, uma proeza que não acontecia há 45 anos, nota o economista Ricardo Cabral, da Universidade da Madeira.

Consumo interno alavancou retomada de Portugal. c.pxhere.com

“Era um rumo que Bruxelas não acreditava que seria possível”, frise Cabral. “Houve concessões de parte a parte: o governo português cedeu e implementou mais austeridade do que desejava, mas em contrapartida promoveu uma recuperação da renda das pessoas, graças à pressão dos partidos de esquerda. Mas, ainda assim, o esforço orçamentário continuou.”

Rigor excessivo prejudicou retomada

Para os dois analistas, os bons resultados da primeira gestão de Costa não são uma mera consequência do remédio amargo adotado por Passos Coelho nos anos anteriores. A austeridade severa teve o efeito de retardar a recuperação da crise, avalia Cabral.

“Muitas empresas faliram desnecessariamente por causa daquelas medidas. A emigração aumentou muito: 150 mil pessoas emigraram, a maioria jovens qualificados, dos quais muitos não vão mais voltar. Isso afeta a sustentabilidade demográfica do país”, explica o economista. “Nós tínhamos uma trajetória de crescimento e tomamos medidas que a interromperam. Tivemos então duas décadas de estagnação.”

Agora, o país precisará se projetar para além do turismo, que teve um papel crucial na retomada – seu peso na economia cresceu de 4% para 8% -, mas não gera empregos qualificados.  “Há um conjunto de medidas muito importantes que ainda precisam ser tomadas. Apesar das correções que foram feitas, Portugal ainda tem uma estrutura salarial frágil, com baixos salários e desigualdades”, ressalta Reis. “Temos que pensar nas questões produtivas da economia, na capacidade industrial. Temos um déficit externo em bens industriais muito elevado”, acrescenta.  

Abrir os cofres com moderação

Os investimentos representarão um quebra-cabeças para o ministro das Finanças Mario Centeno, que em dois anos se tornou o fiador do governo junto às instituições internacionais. Chegou a ser chamado de “Cristiano Ronaldo das finanças” pela Alemanha e virou presidente do Eurogrupo – uma recompensa inimaginável no início do governo "Geringonça", como foi pejorativamente apelidado.

Na gestão de Centeno, o orçamento português mais arrojado foi o de 2016, mas os seguintes foram marcados pelo conservadorismo. “Na minha ótica, o principal desafio é que estamos há 20 anos com a obsessão do déficit e da dívida, de modo que se desaprendeu a fazer política econômica. Por exemplo, não se faz investimento público”, sublinha Cabral. “É preciso reaprender a promover o desenvolvimento econômico do país. E outro grande desafio é tomar medidas para reduzir o peso da dívida externa.” Em 2018, a dívida externa chegou a 88% do PIB português.

No domingo, as urnas reafirmaram a rejeição da extrema direita em Portugal, apesar da onda populista que invade a Europa. “A extrema direita surge quando os desprotegidos ficam abandonados e fora do sistema político”, frisa José Reis.

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