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Férias coletivas na Embraer marcam “começo do fim” da empresa

Por Lúcia Müzell

O anúncio de que a Embraer concederá férias coletivas para os 15 mil funcionários no início de 2020 intensificam os temores de que, uma vez concretizada a venda parcial para a Boeing, demissões em massa poderão abalar o grupo. Salvo imprevistos, o controle da área comercial da maior fabricante brasileira passará para as mãos da gigante americana – vai ser o começo do fim da Embraer tal como a conhecemos, assinala o coordenador do Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp, Marcos José Barbieri Ferreira.

“Acabar, não. Ela não vai fechar as portas. Mas ela vai perder a sua essência. Se a operação for efetiva, a Boeing passa a controlar cerca de 50 a 60% do faturamento e 90% do lucro da Embraer, além das principais unidades produtivas, de engenharia e desenvolvimento da empresa”, explica o professor, que tem acompanhado os desdobramentos da venda.

A empresa brasileira é a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, atrás da Airbus e da Boeing, e especializada nos modelos de até 150 passageiros. Foi essa performance que atraiu a companhia americana. O que vai restar da Embraer serão as seções de defesa e jatos executivos, que responderam por 10% dos lucros do grupo nos últimos anos, comenta Ferreira.

“As férias coletivas claramente indicam uma ruptura, uma desintegração da empresa. Marcam o fim da Embraer como nós a conhecemos. Vão existir duas empresas: de um lado, o centro, o filé mignon da Embraer, a sua melhor parte, que passa a ser da Boeing; e, do outro lado, teremos uma empresa com sérias restrições e limitações tecnológicas e financeiras para poder se manter”, afirma.

Desintegrada, Embraer perde competitividade

O maior desafio, pontua o especialista, será se manter competitiva nessas novas condições. A desintegração vai impactar na capacidade de desenvolvimento tecnológico a longo prazo, avalia o especialista. 

O quadro não suscita otimismo. Os funcionários já se preparam para uma onda de demissões, segundo Herbert da Silva, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos.

“Existe uma grande apreensão dentro da fábrica, a começar porque a empresa foi muito pouco transparente sobre o tema da venda. As férias coletivas são um temor porque faz muitos anos que não as temos na Embraer – acho que desde a época em que era estatal”, indica o sindicalista, funcionário da Embraer. “Toda semana tem tido demissões. Nós estimamos que, de janeiro de 2018 até hoje, já foram 2 mil pessoas, tanto na produção como na engenharia”, relata.

Havia alternativa?

Defensores da transação alegam que, sozinha, a fabricante não conseguiria enfrentar a concorrência no setor comercial, depois que a Bombardier se aliou à Airbus para se fortalecer exatamente na aérea onde a Embraer é mais forte. Por US$ 4,75 bilhões, a Boeing abocanhou 80% da brasileira - equivalentes à parte civil comercial - para responder à jogada da sua concorrente europeia.

Funcionários da Embraer votam no início da greve durante uma assembléia em São José dos Campos, Brasil, em 24 de setembro de 2019. REUTERS/Roosevelt Cassio

No entanto, para o professor da Unicamp, o acordo com a fabricante americana não era a única alternativa para a brasileira, fundada em 1969 e privatizada em 1994.

“Perderia um pouco de espaço? Claro, afinal ela tem 60% do mercado de jatos com menos de 150 lugares. Com o tempo, ninguém mantém essa folga, é própria lógica da concorrência do capitalismo”, pontua Ferreira. “Além disso, se mantendo uma empresa integrada, com capacidade de desenvolvimento, ela pode alavancar e fazer parcerias no futuro. Mas o que ela está fazendo não é uma parceria: ela está entregando o seu coração para uma concorrente.”

Investigação antitruste na Europa

O acordo de venda da Embraer já foi aprovado pelos acionistas e o governo brasileiro, mas ainda está sujeito a uma investigação aprofundada da União Europeia. Não por acaso, a comissão de concorrência do bloco anunciou o procedimento no início de outubro, para avaliar se a fusão abala a concorrência nos modelos de 100 a 150 assentos, de corredor único, fabricadas tanto pela Embraer quanto pela Boeing. A decisão acontece poucos dias depois de os Estados Unidos decidirem aumentar os impostos de importação de aviões europeus.

“A comissão teme que a operação reduza a concorrência no mercado de aviões comerciais”, afirma o comunicado assinado pela comissária Margrethe Vestager, que nota que os demais concorrentes japoneses, chineses e russos não estariam aptos a compensar o fim da Embraer comercial antes de 10 anos.

“A operação poderia se traduzir em um aumento dos preços e diminuição das opções”, ressalta o texto. Para os opositores à futura joint venture, essa investigação, que se encerra em 20 de fevereiro de 2020, parece ser a última chance de atrapalhar o acordo.   

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